quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tem coisas que a Mastercard não faz por você

Após sermos expulsos do trem, eu e Cristina chegamos a Estocolmo, a cidade dos balões: passeio pelo céu custa em torno de 1.600 coroas suecas, ou R$ 400, por pessoa (foto: turista japonês - são os melhores, não tem erro)

Mais de 20 dias na Dinamarca, já acomodados num flat modesto, mobília básica adquirida e recesso de uma semana nas aulas de dona Cristina – que faz um mestrado em Comunicação na Universidade de Roskilde -, decidimos arriscar um breve giro pela Suécia. Verão na Europa é sinônimo de turismo. Não esperávamos, contudo, que um passeio de cinco dias pudesse reservar tanta emoção. Especialmente para mochileiros de primeira viagem.
Antes de tudo, pesquisar preços de transporte. Avião foi logo descartado, já que estava em cima da hora e as tarifas, nas nuvens. Por aqui o negócio é pesquisar nas companhias mais baratas (veja links no fim do post) e com pelo menos dois meses de antecedência. Enfim, o melhor seria (ou poderia ter sido) ir de trem, apreciando a paisagem escandinava.
Numa rápida pesquisa na internet encontramos o site da empresa sueca SJ (veja link) que mostrava preços muito mais baratos do que a expectativa mais otimista e que poderiam ser comprados ali mesmo, depois retirados em máquinas automáticas nas estações. Pela bagatela de 54 euros reservamos os melhores lugares na segunda classe - para não esbanjar - no trecho Malmo/Gotemburgo/Estocolmo/Malmo.
Hotéis (os mais baratos) reservados e bagagem pouca nas costas, lá vamos nós.
De Malmo a Gotemburgo tudo lindo, céu azul e sol. De um lado mar. Do outro, lagos entremeados por florestas de coníferas e campos de feno já colhidos, além de muitos daqueles enormes ventiladores de usinas eólicas (ecologia é coisa séria aqui, mas depois falo disso). O único problema, nada que pudesse comprometer o passeio, era o cheiro de muitos dias sem banho do cobrador que veio conferir nossas passagens e que volta e meia passava pelas nossas cadeiras.
Após dois dias de périplo pela bonita Gotemburgo, voltamos ao trem para desfrutar do trecho pelo interior ermo da Suécia até a magnífica capital, Estocolmo. Tragicamente, entretanto, não pudemos apreciar o caminho.

Loiro mau
Desta vez o cobrador era uma mulher simpática e cheirosa, porém rigorosa. Era o começo do martírio. Pegou nossas passagens, fez um muxoxo e disse-nos alguma coisa em sueco. Desculpamo-nos e perguntamos se poderia falar em inglês (por aqui todo mundo fala). Esclareceu que precisava ver o nosso passe, que aqueles bilhetes referiam-se apenas às reservas dos assentos. Como assim!?! Não aceitamos a resposta e ela saiu, pedindo que aguardássemos.
Reclamei com a Cristina que a inexperiência da moça estava fazendo a gente passar vergonha na frente de todo o vagão – evidentemente todo mundo olhava para a gente. Pedi que ela pegasse as passagens de Malmo até Gotemburgo. Mas ela, sabiamente, preferiu esperar o desfecho da situação.
Voltou um rapaz louro, alto, olhos azuis e uma afetação contida pela importância de sua função – comissário-chefe. Kurt, vi seu nome no broche da SJ. Falava um inglês preciso. Confirmou o que a subordinada havia dito. O que tínhamos em mãos nos dava o direito de escolher as cadeiras desde que tivéssemos comprado o passe de acesso livre. Esse passe é o InterRail (veja link). Nele você escolhe por quanto tempo deseja viajar e a quantidade de localidades, sem assento marcado. O preço, por exemplo, fica entre 503 euros (15 dias) e 1.413 euros (3 meses) com acesso livre a 20 países. Valores para adultos. Jovens com 25 anos ou menos têm quase 50% de desconto.
Ao fim Kurt disse que teríamos de pagar ali mesmo os bilhetes, e na tabela mais cara, claro. Seriam os 18 euros da reserva mais algo perto de 2.300 coroas suecas, ou 270 euros no total. E o loiro ainda tripudiou: “Tem muita gente que acha que pode encontrar tudo mais barato pela internet”.

Píer em área residencial luxuosíssima em Mälmo, projetada pelo festejado arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Ao fundo, ponte que liga Dinamarca à Suécia. Abaixo, o famoso edifício Turning Torso completa o projeto urbanístico de Calatrava (fotos de Cristina Xavier de Almeida)

Passaporte
Ok. Cristina entregou-lhe ao comissário cartão de crédito visa do Itaú Personnalitè. Kurt pediu-lhe uma identificação, no que Cristina entregou-lhe a carteira internacional de jornalista, aquela vermelha com as letras douradas garrafais PRESS. Deveria impressionar, mas não fez efeito, nem aqui jornalista tem algum prestígio: “Se a polícia sueca te pedir um documento este não é válido. Só o passaporte.” Orientação básica para estrangeiros que estão na Europa, mesmo morando. Esteja sempre com seu passaporte. Ou, na pior das hipóteses, com uma cópia colorida plastificada. Cristina não portava nenhum deles. Kurt pediu um tempo e saiu. Demorou intermináveis 15 minutos para voltar e a gente já pensando em polícia, deportação. “Seu cartão não foi aceito, senhora”. Ofereci o meu, pois estava com o passaporte. Ele retrucou que com bandeira visa não seria possível, apenas American Express. Ótimo, eu tinha um comigo. Sem chance. O cartão era brasileiro, o que implica em outra dica. Tenha sempre dinheiro em mãos ou confira se seu cartão vale. Na Escandinávia, não raro, não são aceitos cartões internacionais, mesmo aqueles modernos, com chip e senha.
E Kurt sai novamente. Cinco minutos, volta. Se abaixa. Diz que tem umas perguntas para fazer. Na verdade só uma:
- Vocês teriam algum problema em deixar o trem na próxima estação e pagar a passagem no guichê?
- Temos opção? – ironizou Cristina.
- Não. Estamos atrasados e não podemos esperar por vocês. Outro trem vai passar em uma hora. Uma funcionária da companhia espera-lhes para auxiliá-los. (Na verdade, para evitar que não déssemos o cano no trecho já percorrido, quase a metade do caminho). Retiramos nossas mochilas e nos levantamos, o trem já desacelerando.
- Então, faz muito tempo que vocês estão fora da Espanha? – tentou aliviar Kurt, já nos acompanhando até a porta.
- Não somos espanhóis, somos do Brasil.
- Ohhh, really!? – desabrochou o loiro, sorridente. O pessoal daqui gosta de brasileiros. Especialmente na Suécia, porque a rainha, Sílvia, é filha de uma brasileira. - Mas vocês vieram do Brasil com tão pouca bagagem – suspeitou.
- Moramos na Dinamarca – esclareceu Cristina.
- Ohhh, nice. Bye, bye – enxotou-nos.
Compramos as passagens num trem pinga-pinga que passou uma hora e meia depois e que demorou outras quatro para chegar a Estocolmo. Perdemos o dia, mas o que me chateou mais foi um certo sarcasmo que notei nos suecos. Primeiro o cara achou que queríamos dar o cano na passagem. Depois, em Estocolmo, após ficarmos perdidos uma hora na imensa Estação Central, descemos de metrô perto do hotel e abordamos, em inglês, um passante.
- Como chegamos ao Hotel Formula 1?
- Ah! Um hotel daqueles bem baratos? – disse o sacana.
- Yes – respondi sorrindo e, em português, por entre os dentes, balbuciei – Cretino.
- Um que quase não tem serviço?
- Yes, desgraçado.
- Que tem os quartos bem pequenos?
- Yes, filho da puta.
- Acho que é à direita.
Era à esquerda.
Mas essa é outra história.

Os links, já ia me esquecendo.
Companhias aéreas baratas na europa:
http://www.easyjet.com/, http://www.airberlin.com/, http://www.vueling.com/, http://www.ryanair.com/, http://www.clickair.com/, http://www.wizzair.com/
Companhia férrea da Suécia (há outras, vá ao Google):
http://www.sj.se/
Passe de trem (há outros, esse é em português):
http://www.eurail.com/
Hotel Formula 1:
http://www.hotelformule1.com/
Prefere albergue?
http://www.hostelbookers.com/, http://www.hihostel.com/, http://www.hostelword.com/

2 comentários:

Pedro Palazzo Luccas disse...

Hahahahahahahahahahahahahahahaha.
Tô dando trela aqui!
hahahhaha.
Faltou uma última dica, que, aliás, está nas entrelinhas: não confie em suecos.

Anônimo disse...

Quanta pobreza de vocês.
Ficam na Escandinávia esculhambando com o Brasil, né?