quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Avant-première no mundo dos grandes espetáculos

O maestro argentino Daniel Baremboim, titular da Staatskapelle Berlim, que regeu e ainda mandou ver no piano (a foto é divulgação da Staatskapelle)

Quanto a vocês eu não sei qual seria a reação. Mas eu fiquei eufórico demais quando pesquisava pela internet o que fazer em Berlim e descobri que justamente no período em que estaria lá aconteceria o Musik Fest Berlim, uma seleção do melhor repertório clássico, da ópera e do ballet produzido no ano na Alemanha.
Queria assistir a tudo, o dia inteiro, a noite toda. Mas havia alguns problemas. Estava meio em cima da hora. Como fazer isso da Dinamarca? E o principal: quanto custaria? Pesquisando um pouco mais descobri um site que é um achado. Você adiciona o prazo e o tipo de atração que deseja e ele te mostra o que está acontecendo ou o que vai acontecer.
E ainda indica como comprar pela internet mesmo.
Era um sonho...
Nem tanto.
Estava praticamente tudo esgotado. Sobraram poucas cadeiras, naturalmente as mais caras (200 euros), para as óperas nas grandes casas. Ao fim restou-me um concerto na Staatskapelle Berlim com dois assentos por 10 euros (era tão barato que depois de comprar eu imaginei que seriam atrás dos pilares). Não entendi muito bem o que iam tocar mas só o maestro, Daniel Baremboim, já me convenceu: é uma estrela dourada da música clássica mundial. É argentino, curiosamente. Tenho uma gravação dos réquiens de Mozart e de Verdi regidas pelo Baremboim para a EMI - coisa para qualquer um não, a regência para a EMI.
Paguei com meu cartão de crédito os 20 euros dos convites para mim e Cristina e imprimi o recibo. Lá dizia que em dois dias os tickets estariam na minha caixa de correio em dois dias. A não ser se eu morasse fora da Alemanha, onde o prazo é de 10 dias. Ué? Danou-se. O concerto era em quatro dias. Mas logo eles explicaram no papel que meus convites estariam disponíveis no escritório da casa de espetáculos.
Maravilha. Tudo lindo.
No sábado, já em Berlim, eu e Cristina curtimos o city tour até umas seis da tarde quando o ônibus parou em frente à Staatskapelle. Decidimos recolher nossos convites e, para nossa desgraça, o escritório estava fechado desde as duas da tarde. Fiquei chateadíssimo com a possibilidade de perder o concerto e os meus 20 euros. Mas ainda assim tentaríamos entrar só com o papel do recibo – que o rigor alemão certamente não aceitaria. Já estávamos meio conformados, mas iríamos tentar mesmo assim.
Andamos um pouco mais à pé por Berlim e às 19h30 decidimos que era hora de voltar à Staatskapelle para o concerto, marcado para as 20 horas. Fomos de metrô, para não atrasar – sem convite e ainda atrasado não havia nenhuma chance. Descemos do metrô e, para variar, nos perdemos. Chegamos à entrada às 20 horas em ponto. Por sorte - temos de ter alguma -, o cidadão da bilheteria falava inglês. Disse que nossos convites estavam na bilheteria. Fomos até lá voando. No balcão fomos abordados por um jovem: - Tenho um de 15, tu queres? – Eu honestamente fiquei sem entender de onde havia saído aquele gaúcho no meio de Berlim, junto a toda aquela correria e angústia. Cheguei a pensar que era assalto, mas Cristina interviu mostrando os nossos ingressos e ele fez um gesto com o polegar. Jóia.
Agradecemos e subimos as escadas de dois em dois lances. A platéia já aplaudia a entrada do Baremboim quando achamos nossos assentos, bem em cima, do lado esquerdo; não tinha pilar na frente, mas o corrimão do piso superior ficava bem na linha da cabeça do maestro e na lateral perdia-se a visão de 20% da orquestra.
Ok, pelo menos dava para ouvir bem.
Começou a apresentação. Baremboim regendo e dando canja ao piano. Cristina me pergunta qual era o programa e eu... Sei não, lembro não.
No breve intervalo da primeira peça corri ao saguão e pedi o programa: 2,50 euros. Paguei. Tinha tudo lá.
Em alemão.
Mas consegui identificar a obra: ... Quer dizer, o autor, Elliott Carter, um norte-americano. As obras eram de 1993, 1996, 2002, 2003 e 2006, uma salada.
Mas gente. É moderna demais. Tem de ser muuuiiito apreciador de música clássica para achar bom. Eu gosto muito mesmo, mas não é assim muuuuuuuuuiito desse jeito não.
Teve hora que ficou chato.
Dava a impressão de que ali só tinha músico, professor ou estudante de música na platéia.
video
Já estou ficando metido: olha o videozinho que fiz, escondido, com uma câmera

Restou testar meus conhecimentos sinfônicos – que ao final se revelaram restritíssimos. Tentava identificar os sons, os instrumentos, encontrá-los no meio da orquestra.
Depois do piano do Baremboim veio uma dona, mezzosoprano, para cantar falando. Era norte-americana, de Nova Iork. Voz potente. Eu, claro, não entendia nada do que ela dizia-cantava, mas era chatíssimo.
Na próxima peça um chileno ia fazer solo de... de... - Como é que chama aquela corneta engraçada lá, Realle? – Indagou Cristina.
Eu esqueci. Estava em algum lugar da HD que eu não conseguia acessar. Sabe quando o biscoito está lá no alto do armário, você fica na ponta dos pés, e quando encosta no pote ele vai mais para o fundo? Era assim meu cérebro naquele momento. Eu pensava: bambolina, bardolino, caraminhola... Nada. Depois de 15 minutos naquela angústia (vocês também já sentiram isso) lembrei do programa. Fui e lá estava. Em alemão. Horn (corneta?). Horn não servia. Desisti e voltei a prestar atenção na orquestra.
A outra peça foi bem legal porque tinha nada menos do que quatro percussionistas. Instrumento que eu nem imaginava que existisse. Gongo. Xilofones de madeira, metal, chifre, sei lá; vibrafones, caixas, tic-tacs, ganzá, reco-reco, pratos. Enfim, um monte de instrumentos, os quatro caras trançando de um lado para o outro para socorrer o colega, virar partitura, bater no tímpano. E, de repente, algo me chama a atenção. Mostro para a Cristina o percussionista com uma espécie de marreta na mão. Enorme.
E o cara dá uma porrada com toda força numa caixa de madeira.
Pláááa.
Cruz credo.
E acabou o concerto.
O povo aplaude com entusiasmo. E aplaude mais.
Devia ser uma avant-première desse Elliot Carter, né? Como a alemãozada aplaude!
Fica de pé.
A mão dói de tanto bater palma! E o maestro vai embora e povo continua a bater palma.
E o maestro volta. Cumprimenta a platéia. Chama os solistas.
E dá-lhe palmas.
Vai embora de novo e povo não pára de bater palma.
Já tava dando no saco aquele vai-vem.
E volta o maestro e o povo aumenta as palmas. Ele apresenta todo mundo da orquestra, instrumento por instrumento.
Pede palmas.
O maestro também bate palmas.
E sai.
E nada dos alemães pararem de bater palma.
E volta o Baremboim. Ganha flor.
Já vai uns 20 minutos de palmas nessa p...
Na quinta vez que o maestro saiu eu apelei. Fui embora para o hotel pôr gelo na mão.

Um comentário:

Anônimo disse...

Show, Dom Realle. Tito