sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Vai um baseado aí?

É terra de maluco mesmo, em muitos sentidos, essa Dinamarca.
É um povo tão certinho que não dá para entender como eles permitem que exista, no coração de Copenhagen, um bairro hippie onde a venda e o uso de maconha e de haxixe é tolerado. Não quero entrar no mérito do julgamento, se é certo ou errado liberar a maconha, mas é terrivelmente contrastante com a rigidez das regras da sociedade daqui, onde o senso do dever é quase patológico - nos trens há uma área silenciosa e, às vezes, se algum desavisado fala alguma coisa, é repreendido constrangedoramente.
Christiania fez 37 anos no último dia 26 de setembro. Fomos lá conferir a festa. Tava rolando shows, apresentações e, claro, muuuuita marijuana.
Gente. Nunca vi tanto maconheiro junto, fumando numa boa, vendendo, oferecendo trago (pega). E foi chegando tanto maluco ao longo do dia que lá pelas três da tarde era até difícil enxergar através da névoa. Fiquei doidão só de respirar! Brincadeira!
Christiania surgiu no início da década de 1970 depois que um grupo de hippies e artistas ocupou uma vila militar desativada em Chistianhavn, uma área muito bonita de Copenhagen, com um lago espetacular. Ocuparam os prédios dos milicos, construíram casas improvisadas e decretaram a Cidade Livre, com regras próprias, moeda local e governo independente.
Na época, guerra do Vietnã, o discurso hippie antiviolência ganhou popularidade entre os dinamarqueses e o pessoal foi ficando. Era bonitinho, politicamente correto e tal.
Depois virou problema social. Muitas famílias moravam no lugar, mas não pagavam água, luz, limpeza. E vendia-se em Christiania tudo quanto é tipo de droga. Fizeram um acordo com o governo. Passaram a pagar pelos serviços públicos e baniram drogas pesadas como cocaína e heroína. A polícia, claro, não gosta nada da idéia de ver droga sendo vendida por ali, mas não se mete, já que existe um pacto chancelado no Parlamento Dinamarquês.


Portal de entrada de Christiania, comunidade hippie que ocupou área militar numa das regiões mais bonitas e valorizadas de Copenhagen

Nos anos 70 e 80 o pessoal de Christiania era muito irreverente na crítica à guerra fria e ao capitalismo de base estadunidense. Certa vez, por ocasião de uma reunião da Otan em Copenhagen, os artistas de lá invadiram o estúdio de uma estação de rádio e simularam um boletim urgente anunciando a invasão da Dinamarca pelos Estados Unidos.
Foi um fuzuê no país todo.
Noutro ano, na véspera do Natal, o pessoal se vestiu de papai Noel para fazer o Natal dos desvalidos. Saquearam lojas de brinquedos e os entregaram a crianças pobres. A polícia deu em cima, prendeu todo mundo e as fotos dos papais noeis sendo carregados pelos policiais correram mundo nas capas dos jornais.
Em Christiania rola muita coisa legal. Além de toda liberdade (só não pode tirar foto do pessoal vendendo droga), um restaurante vegetariano, muita arte, apresentações circenses e um templo budista que já recebeu a visita do Dalai Lama e onde rola indefinidamente uma campanha Free Tibete. Mas, claro, também há divisão social entre os próprios moradores. Os que chegaram primeiro vivem nos quentes e em construídos edifícios militares. Um apartamentos têm até sacada. Há também chalés na beira do lago que para Dinamarca é coisa de milionário. Mas há quem viva em trailers caindo aos pedaços, barracos de madeira e papelão, totalmente improvisados; lembra claramente uma favela...
Depois de um tempo analisando porque os dinamarqueses aceitam Christiania cheguei à conclusão de que é porque a comunidade contribui com a imagem – superdimensionada - de tolerância da Dinamarca. Não é uma sociedade tão aberta assim.
Fui embora de Christiania meio grogue. Tinha uns cinco mil baseados acesos quando parti. No portal da Cidade Livre, à saída, li a inscrição em tom de alerta: “Você está entrando na União Européia”.