quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Um monumento à vergonha

Como a história é contada do ponto de vista dos vencedores, o monumento em Sachsenhausen mostra o soldado do Exército Vermelho resgatando os desvalidos do horror nazista. O campo de judeus depois virou campo de prisioneiros dos opositores do regime soviético

Um espaço ermo, um silêncio claustrofóbico. Um nauseante cheiro de morte, de dor, de lembrança. O campo de concentração de Sachsenhausen é assim, um cenário perfeito para a reflexão sobre um episódio tão horrível, o Holocausto judeu. E especificamente naquele dia o frio e o vento cortante tornaram a experiência mais torturante. Não bastava tudo ser tão difícil, em frente às câmaras de execução a máquina fotográfica escorregou da minha mão trêmula, caiu e quebrou, para tornar a visita completamente depressiva.
Sachsenhausen é outra herança do fim da guerra fria. Ficou sob domínio soviético para transformar-se em campo de prisioneiros políticos nos cinco anos seguintes ao fim da Segunda Grande Guerra. Na década de 1990, com a unificação, ganhou status de patrimônio nacional à vergonha. É uma instituição pública, de visitação gratuita, onde os alemães expiam as culpas de seus antepassados. Toda a história do campo, narrada em tom trágico, pode ser acompanhada em áudios-guias em várias línguas (menos português) ao preço de três euros. Compensa pagar pelo espanhol, que se entende sem dificuldade.
Chama a atenção no campo a vala de execuções e as câmaras nas quais não se permitia aos soldados nazistas ver os prisioneiros que eram executados com um tiro na nuca (eles estavam tendo problemas psicológicos, coitados). Nos marcos das valas comuns milhares de pedras depositadas por judeus que visitam os campos em homenagem ao seu povo. E estrelas de Davi montadas em velas levadas pelos visitantes ilustram a indignação e o orgulho dos israelenses nas câmaras de extermínio.
O museu que retrata casos de prisioneiros com recursos multimídia, cartas e documentos originais recuperados é revelador. Lá se encontra ainda o que restou de um alojamento com camas de madeira em três lances que serviram de inspiração a muitos filmes; os banheiros; sala de tortura, além de objetos como roupas e utensílios originais ou reconstituídos.
O detalhe importante do barracão, não deixe de notar, são as paredes de madeira do alojamento totalmente queimadas. Estão assim preservadas com um vidro protetor como monumento à intolerância que ainda persiste na Alemanha. O barracão pegou fogo em 1992, logo após a visita do então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin. O incêndio é atribuído a grupos neonazistas, que desde a inauguração do memorial já perpetraram mais de 60 ataques a Sachsenhausen.
Hoje o campo é todo fiscalizado por dezenas de câmeras de vídeo.

Lembram-se do final de A Lista de Schindler: olha as pedras depositadas pelos visitantes em memória dos mortos

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