quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Drible cultural

O outono mal havia chegado à metade e nevou ininterruptamente por três dias na segunda semana de novembro. Ficou tudo lindo e branquinho. E frio. E escorregadio. Depois derreteu. Virou lama e tal. Mas é uma coisa assim onírica isso de ver nevar. Neve já tinha visto, nos Alpes, nos Andes, mas nevando foi a primeira vez. Eu e Cris ficamos tão maravilhados que tiramos umas 200 fotos. Pensamos que ia ser rapidinho, e que deveríamos aproveitar a oportunidade, já que na Dinamarca – dizem – neve não é comum. Mas foram 72 horas de gelo caindo. Não foi assim uma nevaaaaasca. Deve ter caído uns 15, 20 centímetros de neve. Mas ventou muito e a temperatura oscilou entre 2 e -4 graus célsius.
A neve começou a cair na sexta-feira no fim da tarde (está anoitecendo às 16 horas atualmente). Pela manhã, no sábado, foi uma farra. As crianças saíram às ruas com seus trenós para escorregar nas ladeiras gramadas cobertas pelo tapete branco. Duas muito pequenas, irmão e irmã, seis e quatro anos, gastaram umas três horas fazendo um boneco de neve, que iria derreter na segunda-feira.



Paisagem branca de neve em Roskilde a pai atleta que corre com o carrinho de bebê adaptado para o cooper matinal


Na tarde daquele sábado fomos ao Tívoli, um parque quase mitológico em Copenhagen. Já estava todo decorado para o Natal, com luzes, pinheiros, renas, duendes, papais noéis e... Neve. Uma mãozinha de São Pedro. Coisas que a gente do Brasil só vê pela TV, nos desenhos animados da manhã de 25 de dezembro – O Natal do Mickey.
Fomos ao Tívoli assistir a uma peça de teatro que deveria falar sobre o Natal. Mas que nada! Era um salgadinho (apresentação sob encomenda) de uma companhia britânica. Um compêndio de clichês muito engraçado, mas de algum mau gosto. Sherlock Holmes deveria descobrir quem matou Hamlet, o príncipe da Dinamarca.
O suspeito número 1, vejam vocês, era Silvestrinho Sibilante, um jogador de futebol brasileiro que só pensava em sexo e que casou-se com a raínha, o estereótipo da viúva ninfomaníaca.
O ator que representava o brasileiro deu ao personagem um inglês notadamente italiano e o samba do carnaval que eles tocavam era mexicano - ou cubano -, uma mistura de rumba e salsa. Quase me ofereci para uma consultoria cultural. Mas era tecnicamente perfeito o espetáculo. Todos cantavam esplendidamente, a sonoplastia era feita ao vivo e tudo era muito, muito bem marcado. Hilariante mesmo em inglês.
Graça a Deus nem O Patinho Feio nem O Pinheiro (estórias do famoso fabulista dinamarquês Hans Christian Andersen) apareceram em cena. Mas ao final, Silvestrinho era um disfarce de um professor alemão “fom” não sei de quê: um fascista - e que não era alemão, era austríaco -, para constrangimento dos alemães na platéia.
Foi tudo muito interessante. Mas depois de um passeio de oito horas no gelo, fiquei muito feliz ao chegar em casa e constatar que meus dedos dos pés, congelados e doendo enlouquecedoramente, ainda podiam ser salvos. (Um exagerozinho do barriga-verde aqui.)



Cristina no Parque Tívoli, em Copenhagen, que já decorado para o Natal, parece um cenário de conto de fadas

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