quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sua casa sob um novo ângulo

Quem ainda não assistiu não pode perder. O filme HOME – O Mundo é a Nossa Casa, do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, é o mais belo e contundente manifesto em defesa da Terra, da preservação ambiental e de uma mudança em nossos atuais hábitos de consumo. As cenas aéreas captadas ao longo de 18 meses de trabalho do fotógrafo francês são de uma beleza sensibilizante. As imagens, aliadas a um texto de poderoso poder de convencimento – sem ser catastrofista – faz de HOME um eficiente instrumento de comunicação e denúncia sobre a atual condição de degradação ambiental do planeta, a exemplo de Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore. HOME, que tem a produção assinada por Luc Besson, foi lançado para celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente – 5 de junho.

Mas como assistir ao filme?

Bom, uma boa conexão facilita as coisas. Note aqui que o Youtube mantém um canal exclusivo para o filme, porém não há uma versão disponível em português. Estão em espanhol, francês, alemão e inglês, algumas legendadas e outras dubladas. A baixa qualidade do vídeo no Youtube, porém, não faz justiça à grandiosidade do trabalho de Arthus-Bertrand. Se você tem instalado em seu computador o programa uTorrent (aqui você acha o programa para instalação – gratuitamente), não hesite em baixar o filme. Os arquivos são grandes e podem demorar até uma semana para o download se completar. Mas vale a espera.

O release (versão) mais baixado do Mininova está aqui, com o áudio original e qualidade que se aproxima do HDTV. A legenda que provavelmente de adaptará ao release (ainda não deu para testar) está aqui. Para rodar a legenda, baixe e instale o programa VobSub 2.23. É preciso salvar o arquivo da legenda na mesma pasta do filme e com exatamente o mesmo nome. Um Codec talvez seja necessário. Ele está aqui.

Neste release aqui, encontrado no The Pirate Bay, o texto está dublado em português de Portugal.

Não está familiarizado com as novidades internéticas? Aqui a Fnac vende o DVD – as legendas estão em português – pela bagatela de 4,99 euros. Mas tem frete.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Marina, a esperança no impossível

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima. Negra, seringueira, ambientalista, carismática, um semblante transbordante de honesta confiança naquilo que acredita. Senadora. Um dos expoentes do PT até ó último 19 de agosto. Ministra do Meio Ambiente durante muitos anos do governo Lula.

É ela, Marina Silva.

Maria Osmarina deixou o ministério no ostracismo. Permaneceu esquecida por mais de um ano e continuaria assim irremediavelmente no tempo até que, como mágica, foi descoberta pela imprensa serrista, quer dizer, paulista. Instantaneamente Marina torna-se foco de interesse pelo seu perfil em defesa da sustentabilidade. Não lhe parece estranho que do nada surja tão avassalador interesse? Porque só agora Marina é alvo de tantas homenagens, suporte que lhe faltou à época de ministra?

Enfim, Marina Silva deixou o PT. Considera um convite do PV para disputar a Presidência da República no ano que vem. A notícia seria das mais auspiciosas (para usar um termo da moda), merecedora de loas e fogos. Poderia sim ser Marina a depositária de uma verdadeira esperança de avanço nas questões climáticas e ambientais, que na minha humilde opinião é um dos temas mais relevantes da conjuntura mundial. Alçaria o Brasil à condição real de vanguarda nessa discussão, que envolve o futuro da humanidade.

Poderia ser. Mas dificilmente avançará além da esperança (o que, concordo, não é pouco).

Maria Osmarina tem chances mínimas de sair vitoriosa dessa disputa. Justamente pelas qualidades elencadas no começo desse texto: é negra, acreana, Silva, mulher, ambientalista. Poderíamos pensar que, como Lula, operário, nordestino e Silva, vencerá novamente a resistência da nossa cultura de que os da senzala não pisam à casa grande.

É. Podemos.

Já seria muito difícil não fosse outro impedimento. Uma verdadeira perspectiva de vitória esbarraria na qualidade que diferencia Marina Silva do Lula da Silva: sua honestidade de princípios, sua rigidez programática. Será Marina capaz, como o fez Lula durante sua primeira campanha vitoriosa, de abrir mão de seus ideais em nome de um projeto de poder?

Lembremo-nos da famosa Carta ao Povo Brasileiro, onde Lula e a ala majoritária do PT desistiu de rever as “privatizações lesa-pátria”; onde ofereceu o compromisso (cumprido) de dar ampla autonomia ao mercado, que dizer, ao Banco Central, para definir os destinos econômicos da Nação.

Ou seja, seria Marina capaz de abrir mão dos princípios que pregou em suas décadas de militância? Marina seria capaz, por exemplo, de oferecer um acordo com a ala ruralista, sem a qual dificilmente um projeto da magnitude presidencial teria êxito? Acordo que certamente envolveria algum grau de agressão à Floresta Amazônica, a nova fronteira agrícola?

Parece difícil. Mas não impossível. Mas nesse cenário, enfim, o que trará Marina de diferente?

Marina, não tenho dúvida, não vai resistir ao próprio crescimento de seus números eleitorais. Nessa previsão, seus algozes serão exatamente os que hoje a estimulam. Marina é importante agora como Heloísa Helena o foi na última campanha presidencial, até certo ponto dos gráficos das pesquisas.

Sei. Muitos dirão que esse é um discurso enviesado. Mas é necessário refletir, analisar, e depois concluir. Sem marcar posição, para mim está claro que quem perde com a candidatura de Marina é o projeto do PT de continuar no poder, Dilma Roussef e Lula, seu eleitor número 1, especificamente. E, por consequência, ganham a oposição, José Serra, Aécio Neves, PSDB e DEM.

A presidenciável Marina encontra seus votos no principal filão lulista: os Silva, negros, pobres; e as mulheres, que já consideravam a possibilidade de eleger Dilma. Os votos de Serra oscilarão insignificantemente. E estarão aqui depositados os percentuais entre 10% e 20% dos votos necessários para fazer desmoronar o castelo de Lula.

Mas que reste a lição ao presidente, vítima da própria flexibilidade programática. Marina será uma grande adversária, opositora feroz, como o são hoje os ex-companheiros Fernando Gabeira, Cristovam Buarque e Heloísa Helena (para ficar só entre senadores), exilados nas idéias do PT. Lula colhe o que plantou. No caso, tempestades amazônicas.

Papo de aranha

A audiência de Iris com Lula, hoje, em Brasília, foi pedida diretamente pelo prefeito de Goiânia ao presidente ainda em Anápolis naquele fatídico 13 de agosto. Esse detalhe, que passou (quase) despercebido, foi confirmado pelo sub-chefe de Assuntos Federativos da Presidência da República, Olavo Noleto, em entrevista ao programa Papo Político, na Rádio CBN, ontem pela manhã.
Ou seja. Lula não chamou Iris. Quanto mais para afagá-lo após a repercussão negativa da passagem presidencial por Goiás. Mas o próprio Olavo confirma que Lula soube do bafafá e tocará no assunto para tranquilizar o prefeito. Nada que se pareça com um pedido de desculpas, porque, "na cabeça do presidente", não houve deselegância ou desprestígio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A culinária na era digital

Olhaí um site legal: www.digeat.com. É do jornalista Ênio Pinto Miranda, de Sampa. O Ênio participou do mesmo programa Comundus que dona Cristina Xavier de Almeida participa em Firenze. Como foi para lá no ano passado, deu dicas importantes para a gente e acabamos nos tornando amigos.

O Digeat, explica o próprio Ênio, fala “sobre comida e cultura, comida e sociedade, comida e estilo, comida e mídia, comida e comportamento, comida e política, comida e economia, enfim, qualquer coisa desde que tenha alguma ligação com a comida. E com a bebida.” Uma abordagem muito instigante, por sinal. Passe por lá para uma degustação.

O Crepúsculo dos Deuses

Assistir a Zubin Mehta dirigindo uma orquestra já seria fascinante. Regendo uma ópera, então, era glorioso. No palco, porém, o acompanhava uma das trupes teatrais mais criativas e revolucionárias da atualidade, o grupo catalão La Fura Dels Baus. E, para completar, a obra, magistral, definitiva: Götterdämmerung, O Crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner, a última das quatro óperas que compõem a saga do Anel do Nibelungo, da fábula das Walkírias.

Fantástico. Eu era o homem certo no lugar certo. Quer dizer... O lugar não era lá muito bom, na penúltima fila do Teatro Comunale di Firenze, mas eu levei um binóculo para compensar. Também, por míseros 35 euros poderia ser uma cadeira de espinhos. (Na Europa todo mundo pode ir à ópera, ao teatro, aos concertos, pois há ingressos para todos os bolsos e os estudantes pagam menos mesmo, sem cotas preestabelecidas.)

O Crepúsculo dos Deuses foi o espetáculo mais esperado do Maggio Musicale Fiorentino de 2009, um dos festivais culturais mais importantes da Itália e que acontece desde 1933. Sem dúvida a apresentação mais instigante que já pude ver. Foram simplesmente cinco horas e meia de música, dança e teatro, com personagens voando presos a cabos invisíveis, divas cantando em piscinas de vidro e até um navio no palco. Os recursos de multimídia e as projeções de luz são impressionantes, assim como os seis monitores gigantescos auxiliando na composição do cenário. Inesquecível.

Encontrei essa reportagem especial da Rai no Youtube, em três partes (e em italiano). Dê uma olhadinha.

http://www.youtube.com/watch?v=i-cAerF9G58&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=6K6SyBGXh_c&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=V4821157Q4E

A chacina madrileña

Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri, lotada para as
apresentações de 27 de maio de 2009, nas Fiestas de San Isidro

Eu achava que não teria estômago suficiente para ir naquele lugar. Apesar de ser programa obrigatório para um turista na Espanha, resisti muito, confesso. Até torci para não conseguir os ingressos. Mas, depois de cortar meia Calle de Alcalá numa caminhada de duas horas sob um sol inclemente, lá estava, escondida entre magníficos edifícios, a livraria onde eu encontraria as entradas para a mítica Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri, capital espanhola. Na verdade, uma conjunção de fatores conspirou para que eu presenciasse um espetáculo perigoso, degradante e inesquecível na tarde daquela terça-feira. Primeiro, porque não acontecem eventos desse tipo às terças-feiras. Exceção feita a maio, mês das Fiestas de San Isidro, quando são realizadas touradas diariamente. Pensei muito antes de ir àquele lugar de crueldade. Mas fui em consideração ao meu sogro, o Professor Xan, um aficcionado por touradas que não perdeu uma durante os meses em que esteve em Madri à época do seu PhD, na década de 80. Pois não é que o próprio Xan se surpreenderia com as emoções reservadas àquela tarde!

O programa anunciava Los Novillos de... De... Sei lá quem, Dom Pompelmo, algo assim, esqueci o nome do “cafetão”. Enfim, os novillos referiam-se aos jovens animais, mas cheguei a pensar que fossem os toureiros de pouca idade que iriam se apresentariam naquele dia. Rapazes na casa dos 18 anos. Três, e cada um deveria assassinar dois animais. Uma carnificina.

Do que vi, compreendi que uma tourada não é aquela coisa de Davi contra Golias, ou seja, um homem de 80 quilos contra uma besta de 600, como gostariam de fazer crer os defensores dessa tradição. Aqui nesse blog tem uma explicação detalhada do ritual da tourada. Não é bem assim. Consiste em irritar, sacanear, humilhar e depois assassinar um touro com uma espada de maneira desigual. Na arena, a sacanagem contra o touro deve demorar, mas a morte, especificamente, deverá acontecer o mais rápido possível, porque a platéia, compadecida do sofrimento do animal (quanta hipocrisia), deseja uma morte veloz.

Começa assim: ainda nos subterrâneos da arena, mete-se um agulhão na região onde o nosso zebu tem o cupim (veja bem que taurinos europeus não possuem o cupim pronunciado). Fica um lacinho para fora do espeto, esvoaçante. Abre-se a porta e o animal entra correndo, já está enfurecido por conta daquele furo. Na arena, alguns aprendizes de toureiro, com capas cor-de-rosa (vermelha só a do figurão principal), ficam lá enchendo o saco, aparecendo e se escondendo a cada corrida do animal.

Quando ele já está arfante, língua de fora, aparecem os picadores. É por eles perpetrada a crueldade principal. Vêm montados em um cavalo-blindado (e vendado, para não ver o que tem de enfrentar). Os picadores empunham uma lança de dois metros em cuja ponta fica uma pinça afiada de dois por três centímetros. O touro é estumado a investir contra o cavalo para que, de cima, o picador perfure ferozmente a região logo acima do pescoço do animal. Na tourada, esse procedimento representa igualar as condições entre touro e toureiro. O animal sangra copiosamente pelo corte. Na tarde de San Isidro, para espanto do Professor Xan, que nunca tinha visto coisa semelhante, um touro derrubou um dos cavalos com picador e tudo. Foi necessária a intervenção dos responsáveis pelas distrações para que equino e picador se recuperassem.

Após o picador, aparece uma figura, o banderillero, armada com apenas dois espetos emplumados. Esse sim vai encarar o touro de frente. Ele atrai a atenção do animal sobre si, e, quando o touro dispara no seu rumo, este sai correndo em diagonal, se encontra com a fera no meio do caminho e finca as banderillas logo atrás do pescoço, onde há terminações nervosas. Naquela terça-feira de San Isidro, logo na primeira sessão, um desses banderilleros calculou mal sua corrida e teve de desviar no meio do caminho, a besta no seu encalço. Sério. O cidadão, naquele momento, faria Usaim Bolt comer poeira. Disparou em diração à amurada que separa arena dos espectadores, boi no encalço, e num impulso jogou-se sobre a platéia. Salto em altura para Sotomayor nenhum botar defeito. O público foi ao delírio.

Mas aquela seria apenas só mais uma das emoções do dia.

Acima um banderillero no ato, homem que encara o touro sem capa nem espada. Abaixo, um picador, que sangra o animal para deixá-lo em "igualdade de condições" com o toureiro

Bem. Da tarde daquela terça-feira, ainda lembro-me dos nomes de dois toureiros: um era o Lechuga, porque quer dizer alface em espanhol (e porque um espanhol não parava de dizer “mui mal, Lechuga, mui maaaal”) e o outro era Juan Carlos (nombre de rey, alertou-me o mesmo espanhol), rapaz metido a gostosão. Pois é. Esse monarca era todo cheio de pose, encarava o touro, todo-todo, curvava-se para traz sobre a coluna, com a mão direita acima da bacia, e postava-se perigosa e corajosamente entre o touro e sua capa vermelha. Abusou muito da sorte até que o bovino encaixou-lhe o chifre esquerdo entre as pernas. OOOOOHHHHH, bradou em uníssono a Plaza de Toros. O colosso negro deu um giro com a cabeça que fez o rapaz dar uma pirueta no ar... Juan Carlos subiu uns dois metros, braços e pernas balançando como num boneco de pano. Hoje, ao recordar, a cena se passa na minha cabeça em câmera superlenta, algo meio Matrix: o cara subindo, rodando, balançando os braços como mamulengo e descendo ao solo. Foram centésimos de segundos chocantes. Juan Carlos se estabacou no chão e por sorte, ainda no ar, soltou a capa, o que desviou a atenção do animal. Os assistentes correram a desviar o touro... O mais impressionante foi ver o jovem se levantar da areia da arena num pulo e correr para a segurança da barreira de ajudantes. Sujeito sortudo. O que poderia representar uma castração ficou apenas em um rasgo na calça, aquelas bem ridículas de malha cor-de-rosa.
Alguns minutos depois, já recuperado, Juan Carlos voltou decidido a vingar-se do algoz. Não o fez na primeira estocada com sua espada (o bom toureiro não deixa o touro sofrer e o mata instantaneamante). Foi preciso que assistentes retirassem a arma e lhe servissem outra, para o golpe final e mortal.

Olhaí o jovem toureiro Juan Carlos, dando as costas para a fera e, abaixo,
preparando-se para o malfadado "golpe mortal"

O afã de matar o touro rapidamente, por exigência da platéia, foi a razão das chifradas que levaria o terceiro toureiro da tarde (aquele do qual não me lembro o nome). Rapaz corajoso, aquele. Espada em riste, se lançou sobre o animal duas vezes até que a espada penetrasse o coração do bicho. Na primeira, foi golpeado tão violentamente que duvidou-se que voltaria. Retornou dez minutos depois para levar outra cabeçada. Mas desta vez enterrou fundo a espada, para delírio da espanholada. Matou o touro e saiu carregado, para voltar depois convalescente e receber as saudações com rosas ao fim do espetáculo. Resultado daquela tourada: um banderillero velocista-saltador, um picador no chão com seu cavalo, dois jovens toureiros no hospital e seis novilhos mortos.

A carne deles abasteceria aos churrascos nas instituições de caridade de Madri (sem cupim).

Nos vídeos abaixo, trechos da tourada de 27 de maio de 2009 na Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri: o baile e a execução

A primeira pesquisa

O que dizer da pesquisa Fortiori/Tribuna do Planalto/Rádio 730?

Bom...

...

...

Algumas questões me ocorrem.

Porque fazer a pesquisa só em Goiânia?

Não fica parecendo delivery?

...

...

E algumas conclusões.

Os números (considerando o espectro restrito à Capital) não surpreendem. Iris faz uma boa gestão, é inegável, e é natural que o goianiense reconheça isso.

...

Surpreendente é perceber que, apesar de fazer uma boa gestão, o goianiense não tenha interesse em que o prefeito continue no cargo! (A pesquisa devia ter perguntado ao eleitor se ele sabe quem é o vice-prefeito de Goiânia.)

Complicado o goianiense, né não? A maioria não vê problema na saída de Iris para disputar o cargo de governador. Tubo bem. Mas porque a percepção quanto a Iris não se repete para outros candidatos, como dois pesos e duas medidas? Pois a pesquisa mostra que se Iris pode sair numa boa, o mesmo não ocorre com o senador Marconi Perillo e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, outros nomes na disputa.

Intrigante, não? Alguém se habilita a explicar?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Coisas do demo

Ronaldo Caiado, líder do DEM na Câmara dos Deputados, insistiu hoje no Jornal do Meio Dia (SBT) que está candidato a governador de Goiás pelo seu partido e que busca o apoio PP, ou seja, do Palácio das Esmeraldas, de Alcides Rodrigues. Caiado, contudo, elogia (comedidamente) o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, auxiliar de Lula, o presidente sistematicamente espancado pelo DEM em Brasília.
Mas Mairelles pode ser a opção de Caiado caso não convença Alcides e o PP de que seu nome tem pegada. A questão do apoio do DEM local a um auxiliar de Lula, que parea nós goianos não parece nada complexo, é um escândalo para imprensa nacional. No Blog do Josias de Souza, o tema é destrinchado. O jornalista até que se mostrou relativamente bem informado sobre as particularidades políticas aqui da terrinha. Leia aqui (está no fim de página). E não deixe de dar uma olhada nos comentários, divertidísssimos, onde constata-se que, se os paulistas votassem para eleger o governador de Goiás, Meirelles já estaria eleito.

Respeitável público: “Companheiro Meirelles”

A disputa pelo governo de Goiás do ano que vem pode acontecer em dois extremos: emoção total ou rigoroso tédio. Pelos acontecimentos da semana passada (a visita de Lula, diga-se), por enquanto as coisas se encaminham para a primeira opção. Basta observar a confusão que os intensos e recorrentes afagos presidenciais ao companheiro Meirelles (o goiano e “anapolense” Henrique Meirelles, presidente do Banco Central) causaram por aqui.
O fator Meirelles, mesmo sem a chancela do Planalto (e mais com ela), é sem dúvida o elemento principal do vaudeville eleitoral até o momento. Meirelles é a surpresa, a novidade, o diferente, o inesperado, e isso estimula toda a diversidade de reações que foram vistas no nosso mundinho político.
É.
Mas, agora, convenhamos... Não há nada de espantoso no fato de Lula desagradar aos helênicos. Porque Lula deveria afagar Iris, quando tem a oportunidade (ou seria o dever?) de apoiar um auxiliar direto? Isso sim seria uma deselegância. Porque Lula deveria acompanhar os desejos do PT goiano? Não porque o PT faz parte do governo de Iris na Prefeitura de Goiânia, porque o fez quase mortalmente dividido. O PT considerou àquele momento o desejo de Lula?
Lembremo-nos que os dois deputados federais que estavam no palanque com Lula e Meirelles (e Iris), Rubens Otoni e Pedro Wilson, foram votos vencidos à época da decisão do PT de apoiar a reeleição do prefeito. Dos grupos que hoje controlam o PT, a maioria estão por Meirelles; o de Pedro, amigo de infância; o grupo delubiano... Só Otoni, aparentemente, poderia opor alguma resistência pelo fato de que, numa chapa majoritária com Meirelles à frente, outro “anapolense” dificilmente teria lugar.
E mais: porque deveria Lula afagar Iris, que, com excessão da mulher, não tem qualquer influência sobre a bancada do PMDB goiano na Câmara dos Deputados?
E mais ainda: filiando-se ao PP, Meirelles sepulta definitivamente qualquer resquício de possibilidade de o PP do govenador Alcides Rodrigues apoiar as postulações de Iris. E sem PT e PP, o que fará Iris? Enfrentará, com a cara e a coragem, uma disputa contra o ex-governador Marconi Perillo e contra um Meirelles escorado nos governos estadual e federal? Parece pouco inteligente.
O que fará o PMDB (quer dizer, Iris)? Lançará Adib Elias? Porque certamente Maguito Vilela não abrirá mão da Prefeitura de Aparecida de Goiânia para embarcar numa aventura que sequer o próprio Iris desejaria. Não, Adib na disputa seria revanchismo, infantilidade.
Restará a Iris, por fim, apoiar Meirelles, abrindo espaço para que sua mulher, Dona Iris, possa competir numa chapa ao Senado (isso pode ser o fator mais importante nas decisões do PMDB, inclusive reaproximando de Iris os atuais deputados federais).Enfim, o apoio de Iris a Meirelles é tudo que outros povos mediterrânicos (do PSDB, para ser claro) mais temem, e por isso foram também desagradados. Iris, num chapão das oposições, seria, como dizem, “uma baba” (ops), “mamão com açúcar”, “inhambu na capanga”, W.O. para Marconi. Aquilo que já disse lá em cima: tédio total. Iris e Marconi já se enfrentaram, e o povo já escolheu. Porque o eleitor mudaria de idéia tão radicalmente?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

República Checa - A Europa que cabe no seu bolso

A República Checa oferece atrações de tirar o fôlego. Castelos, monumentos, cidade medievais, história, cervejarias e, o que importa muito em tempos de crise, preços baixos. Oficialmente aceito na União Européia, o país ainda não adotou o euro. E o resultado é uma moeda desvalorizada em relação ao real, cuja conta é feita na base de 1 para 10, ou seja, 1 real, 10 coroas checas; sem contar que o custo de vida é muito baixo em relação às demais nações da Europa Ocidental. Para se ter uma idéia, uma cerveja, de meio litro (não qualquer cerveja, pois deve-se considerar que os checos fazem as melhores e mais premiadas do mundo) custa a bagatela de 3 reais. Um belo almoço ou jantar não custa mais de R$ 20 e, na hospedagem, encontra-se excelentes e muito bem localizados hotéis de 4 estrelas por R$ 150 a diária do casal. Na alta estação!
Os preços baixos, veja bem, não significam necessariamente serviços ruins. Se por um lado o inglês deixa a desejar, a descontração e a boa vontade dos checos em receber bem compensa em muito tal deficiência. O governo está investindo pesado no turismo, oferecendo infra-estrutura e atrações culturais. E se você gosta de música clássica ou de jazz de muito boa qualidade, estará no lugar certo. Portanto, é bom aproveitar rápido, porque logo, logo a República Checa estará ao nível (inclusive de preços) dos demais destinos europeus.

A Capital
Praga em nada deve às grandes capitais da Europa em termos de transporte público, comida, serviços, diversidade cultural e religiosa, mercados, praças, arquitetura e história. Há quem a considere (minha cunhada) mais bela que Paris ou mais agitada que Berlim ou Madri. É verdadeiramente uma cidade encantadora, com edifícios de fachadas impressionantes em toda a extensão das avenidas e monumentos muito bem-cuidados. Há ainda a intrigante Cidade Velha (Staré Mésto); igrejas magnificamente decoradas; museus importantes e um castelo majestoso, de beleza hipnotizante, dominando a paisagem do outro lado do rio Vltava. Na lindíssima Charles Bridge (Ponte Carlos), com suas estátuas escurecidas, artistas de rua fazem performances inspiradas. À noite, óperas, teatros e casas noturnas oferecem uma produção musical e cênica entre as mais importantes da Europa (a música clássica é particularmente muito apreciada na cidade) e os melhores DJs da cena européia são importados para sacudir as boates.

Ponte Carlos, vista através do insulfilme das microjanelas do Museu Kafka, em Praga; ainda na capital checa, o Castelo de Praga ao crepúsculo

Ah! Em Praga, é necessário ir às compras. São inúmeras avenidas comerciais oferecendo de simples bugigangas locais às mais chiques grifes internacionais. Os preços são simplesmente irresistíveis.


Interior básico na República Checa

Pilsen - O nome já diz tudo. Uma visita à mais importante cervejaria da República Checa, com degustação e acompanhamento de todo o processo de produção, é imperdível.


Kutna Ora - Cidade medieval com o mais impressionante castelo da Europa Central, a apenas alguns minutos de trem de Praga.


Cesky Krumlov - Uma viajem no tempo. Cidadezinha ao sul, quase na fronteira da Áustria, com fascinante casario medieval, pequenas ruas só para pedestres e um castelo espetacular, com um jardim de sonhos e ursos de verdade no fosso.


Vista de Cesky Krumlov acima e,abaixo, urso no fosso do castelo da cidade

Genealogia musicale

Da série Italian posts

Aveva a quel tempo 15 anni. Lo spettacolo era previsto da molti mesi nella mia città. Tutti i miei amici ansiosi, irrequieti, ad aspettare. Ed io, niente. A me non sembrava importante quel gruppo di un rock senza sale, senza colore, con musiche di testi triviali, banali, fatto di giovani studenti di ingegneria e con un nome bizzarro: Ingegneri delle Hawai. L’unica musica che potrebbe essere sentita era una copia di uno successo degli anni 60 che, per me, era stata prodotta per il gruppo Os Incríveis (Gli Incredibili). Ma no, mi ero ingannato. Ironicamente, era la copia di una copia di una canzone italiana (ho scoperto questo adesso), C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones, di Gianni Morandi, del’anno 1966. C’è una versione attuale nel sito Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=1B_ibsx0cn4&feature=related. Guarda che Gianni (un’altra ironia) canta acompagnato dal berimbau, strumento associato alla musica brasiliana, ma che, davvero, ha origine in Africa.

Allora, una settimana prima della benedetta presentazione degli ingegneri, lei fa a me quella terribile domanda: “Vai anche tu allo spetacolo?” E dopo mi trovavo io completamente disperato, cercando un biglietto a qualunque prezzo. Lei era la ragazza più bella della scuola, nonostante il suo 1,44 metro. C’era sempre una coda di ragazzi dietro lei (anch’io). Infine, sono riuscito trovare il biglietto. (E anche conquistato la ragazza... Un romanzo violento però fugace, poichè abbiamo scoperto dopo numerosi contrasti tra noi, non solo sulla musica.

Quindi. Questo è un racconto che mi è arrivato alla testa quando penso che la musica può stimolare comportamenti, rapporti sociali, unire fazioni di giovani. Ecco, una esperienza particolare.

A quel tempo nella mia città c’erano alcune tribù gionanili, molto diverse tra loro: quelle del hard rock (heavy metal), i grungies, i agroboys e quelli a cui piaceva il così detto rock nazionale. Tuttora non essendo particolarmente un’appassionato per questo ultimo genere musicale, ero abitualmente insieme a quel gruppo per non restare completamente isolato. All'epoca volevo sentire la musica classica per colpa di uno professore tedesco, Edwald August von Waldow, que chiudeva a chiave circa 200 adolescenti nel teatro della scuola per ascoltare le esecuzioni integrali del Bolero, de Maurice Ravel, di Carmina Burana, de Carl Orff, delle Quattro Stagioni, de Vivaldi, tra altre. Una musica erudita, possiamo dire, “più popolare”, ma che per 199 studenti 15enni era davvero un tormento, tedio totale; per me, però, era fantastico, una scoperta.

Ma chi erano questi miei compagni di ascolto (molti dei ancora oggi sono miei amici) ai quali ero unito per non rimanere isolato? Giovani figli della classe operaia che sono riusciti a vincere un’esame troppo difficile (uno posto per ogni 50 candidati) per entrare nella Scuola Tecnica Federale del Brasile, la migliore scuola publica della città (nel Brasile le boune scuole sono private e il costo è proibitivo per un’operaio). Erano giovani bravi, differenziati, comunque con una formazione culturale di base operaia, voglio dire: nell’aspetto musicale, avevano ereditato le tradizioni dei loro genitori. Gli operai della mia città (una città con 75 anni), nella maggiore parte, sono immigrati del nord-est, la regione più povera del Brasile, con un solido bagaglio culturale, e con una forte tradizione musicale. Sono ritmi come il forró, baião, xaxado, per ballare uomo e donna. L’atto più coraggioso di contestazione di questa generazione verso i loro genitori era stato cambiare il dial della radio dello AM per il FM. Infine, sono giovani che ascoltavano la musica del nord-est brasiliano e il pop music, nazionale e internazionale, presentate nelle radio.

La musica classica era troppo per loro. Io? Si, certamente figlio di operai, però immigrati del sud, da San Paolo, e prima dell’Italia, del nord e del sud. Mia madre ha contribuito a formare una parte del mio gusto musicale. Lei, professoressa di portoghese, aveva seguito una buona università negli anni 70, A quel tempo il luogo dove veniva ascoltato il meglio della MPB (Musica Popular Brasileira – che non è pop) e della Bossa Nova prodotte nel Brasile. Gli anni 70 sono stati l’epoca d´oro della musica brasiliana. Sono cresciuto ascoltando questi suoni, molti elaborati nella orchestrazione, nel testo poetico e nel subtesto di forte contestazione politica alla dittatura.

È arrivato il giorno che sono stato a cercare la mia “squadra musicale”. Sono andato a cantare nel coro della scuola. Però, quello era un luogo per i professionisti, persone interessate a seguire il mestiere di cantante lirico. Non era questo che volevo. Cioè, non’era la mia tribù. Sono così diventato un senza-gruppo -- nel senso musicale --, condividendo gusti con persone diverse ma, nella maggiore parte del tempo, ascoltando musiche da solo, a casa mia, nella macchina (di solito neanche la moglie comparte con un’orecchio così eclettico). Il piacere nell’ascolto della musica classica in Brasile è considerato elitario.

Attraverso gli anni, insieme all’amore per la musica classica, ho avuto contatto con diversi altri stili musicali. Sono stati passioni temporanee, però intense – c’è un vantaggio nella passione per la musica poichè una non prescinde l’altra. Tutto è stato messo insieme per formare una grande e diversa discografia personale. Il rock e il rock progressivo sono arrivati insieme alle droghe (allora, leggeri e bisestili, marijuana e tè di un fungo speciale che nasce insieme al sole nella merda di bue dopo una notte di pioggia – è vero!). Alcuni esempi: Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Doors; Peter Gabriel senza Genesis, con preferenza speciale per quelle musiche fatte per il film The last Temptation of Christ (Martin Scorsese); Rick Wakeman, con Journey To The Centre Of The Earth. Pink Floyd, particolarmente nella fase Roger Waters, ha lasciato una macchia indelebile, un capitolo speciale con l’acquisto di tutta la discografia della banda. Anche progressivi brasiliani, come Mutantes e Secos & Molhados. L’insieme di ritmi del Led Zeppelin sono arrivati poco dopo. I Rolling Stones non mi piacevano e non sono propriamente un amante dei Beattles (confesso che non conosco altro che i classici del gruppo britannico).

Musiche diverse hanno sempre attirato la mia attenzione. La fusione jazz-rock-clássico di Frank Zappa é un esempio. Lo stile performatico, postmoderno di Laurie Anderson (oggi sposata con Lou Reed) e di Bob McFerrin, altro. Anche l’erudito minimalista di Steve Reich. Qualche anno fa ho conosciuto George Gershwin, il quale mi ha fatto apprezzare ancora di più il jazz. Duke Ellington, Dave Brubeck, John Coltrane e Miles Davis sono i miei preferiti, anche l’interpreti come Nina Simone, Ella Fitzgerald e Billie Holliday. L’anno scorso ho aggiunto allo scaffale jazzistico Herbie Hancock.

I nuovi suoni brasiliani sono molte gradevoli. Il movimento Mangue Beach diventa una innovazione che unisce il rock e il maracatu (tipico ritmo del nord del Brasile). Il movimento ha influenzato altri musicisti, però ha perso forza dopo la tragica morte del creatore, Chico Science. Il Movimento Armorial, affiorato anche nel nord-est brasiliano, è particolarmente interessante, dunque studia e restaura le antiche tradizioni musicali delle popolazioni di questa regione. I ricercatori hanno scoperto elementi della musicalità araba nel cuore cristiano del Brasile, testamento della colonizzazione iberica del cinquecento, quando quelle che erano considerati fuorilegge (spesso i mussulmani dopo la riconquista cattolica della Penisola Iberica) erano mandati in esilio in Brasile.

Tra i classici oggi ascolto spesso Bach, Mozart, Beethoven, Stravinsky e Rachmaninoff. Ho un interesse crescente per la musica barocca, in particolare quella italiana del settecento e dell’ottocento. Ho ancora una entusiatica curiosità per le opere di Wagner, Mozart, Puccini e Verdi.

Os textos em italiano referem-se a trabalhos realizados em virtude do curso de Comunicazione Strategica da Università degli Studi di Firenze.

La popular music in Italia

Da série Italian posts

Un concetto elastico, se così potessemmo concettualizzare. Considerando le varie definizioni, la musica popolare può essere un po 'di tutto, quando si tratta di genere: dal rock che piace ai giovani sino alla musica classica di grande portata di Andrea Bocceli e dei Tre Tenori. La popular music può essere ancora quella dell concetto anglosassone, che “fa riferimento ad un ambito diverso, e cioè a tutta quella musica con finalità commerciali che si presta ad un consumo di massa”. Tale affermazione, tuttavia, è fragile, perchè è contraria al fatto che alla fine, tutta la musica viene prodotta per la vendita e per raggiungere il maggior numero possibile di ascoltatori. Infinne, “dare una definizione di popular music è molto difficile visto che il termine popular può essere interpretato in vari modi: esso ha a che fare con il popolo anche se definire qualcosa con il termine popular può trasmettere un senso di qualità inferiore, il che non corrisponde a realtà.” Middleton, tuttavia, può aver dato la migliore definizione: “La popular music può essere inquadrata solo come fenomeno in continuo movimento.”

Prima di raggiungere all'obiettivo di questo lavoro, che esamina l'influenza della produzione e del consumo di popular music in un certo periodo della storia italiana, è necessario, anche se brevemente, fare alcune osservazioni sulla musica come fenomeno comunicativo. Infine, la musica come fenomeno comunicativo può essere solo un po' più comprensibile se si considera che la definizione di comunicazione di massa, come azione di unica via, che ritiene all'audizione una homogeneità e una passività, è già superata. Insomma, dobbiamo prendere in considerazione l'ambiente, i valori e gli aspetti culturali dell’udienza, e reputare alla comunicazione la condizione di strada di doppio senso. Vale a dire: “Si tratta di un processo soggettivo, critico e creativo, durante il quale l’individuo seleziona, interpreta ed assimila i contenuti che derivano dai media, i quali, entrando a far parte dell’esperienza, plasmano continuamente l’identità.”

L'anno, 1968. Pieno di vigore giovanile per cambiamenti, per prendere il potere non solo in Italia ma in tutta Europa e in altri paesi del mondo. Erano giovani che avevano in campo musicale il suo grido di indipendenza dai valori parentale. In questo fausto anno, a San Remo, a dispetto di tanti cantautori con messaggi politici in suoi brani su il potere giovane, il vincitore è: un brasiliano. Roberto Carlos, que cantò insieme a Sergio Endrigo la Canzoni Per Te. Magari non sia importante che un brasiliano sia stato il vencitori. È, però, importante sapere chi era questo cantante e e che cosa cantava. Prima, devo dire che a quell’anno sua musica era romantica e che lui, fino ad allora un “ribelli ma non troppo”, già cominciava a segnare questa nuova direzione alla sua carriera. E, dopo, dire che Roberto Carlos era odiato dalla sinistra rivoluzionaria brasiliana. Era considerato un alienato, perchè i loro brani mai collaborarono con lo sforzo, spesso suicida, da parte di tanti giovani per il ritorno della democrazia Brasile dopo il colpo militare di 1964. Il trionfo di Roberto Carlos in Italia, senza dubbio, fu la gloria per i generali.

A quest’anno, 1968, nel tradizionale Festival Internazionale della Canzone, in Brasile, Roberto Carlos nemmeno fu alla finalissima. Vinsero due geni della musica brasiliana, Chico Buarque e Tom Jobim. Il brano, Sabiá, malinconico e romantico, insieme alla bela orchestrazione aveva un texto pieno di messaggi contro la dittatura. L'allusione era chiara ai forzati esili del paese degli artisti e degli oppositori politici dei militari. Parlava anche del sogno di libertà. Al secondo posto arrivò Pra não dizer que não Falei das Flores, da Geraldo Vandrè, che ben presto divenne l'inno dei giovani contro l'oppressione. Il militare vietarono l'esecuzione pubblica di questa musica per 11 anni.

Ma, come Roberto Carlos e Sergio Endrigo riceverono l'approvazione del pubblico italiano, prima di un'atmosfera esplosiva in Italia, con i giovani sulla strada di fronte alla polizia? Giovani che furono rimproverati dai intellettuali trasgressori come Pier Paolo Pasolini? Perché Adriano Celentano, che l'anno precedente c’era fatto un complimento ai Beat, rimase al terzo posto nel 1968 con un brano romantico? É certo che, nella sua presentazione al festival, lui cantò visibilmente imbarazzati, sparsi sul palco, mostrando la sua posizione scomoda. Sarebbe il San Remo da quel’anno la prova di un peggioramento del conflitto di generazioni, con gli anziani inviando un messaggio di che i giovani avevano superato i limiti? Oppure, forse, Carlos e Endrigo non personalizzavano la propria crisi esistenziale giovanile del 1968, il confronto tra tradizionalismo e cappeloni con il loro “anticonformismo di facciata”, como aveva accusato Renzo Arbore? E per quanto riguarda ai cantautori, che erano già abastanza ascoltati appunto di far parte degli interessi della industria della musica con le sue canzoni piene di messaggi politici e anche con un profilo distintivo della musica leggera? “Da aggiungere inoltre che l’edizione 1967 fu vinta da due cantanti ‘tradizionalisti’ di valore, Claudio Villa e Iva Zanicchi con Non pensare a me che ebbero la meglio sui ‘contestatori’ capeggiati dai cantanti beat. Infatti al terzo posto si classificarono I Giganti e i Bachelors con Proposta le cui prime parole recitavano: ‘mettete dei fiori nei vostri cannoni...’, un inno alla pace che manifestava una vera e propria frattura generazionale e artistica, la quale sarebbe stata ancora più evidente negli anni successivi”. Cosa acadde ai ribelli nel 68?

Mettiamo un'altra possibilità: la vincita di Carlos, il primo stranieri a riuscire questo posto a San Remo, potrebbe significare una apertura ritardata, in virtù delle interferenze dei giovani, dell'ultimo bastione di resistenza contro i cantanti stranieri in Italia. Dobbiamo considerare che nel 1965 I programmi Bandiera Gialla e Per Voi Giovanni cominciarono a mettere in onda brani stranieri di artisti come “James Brown, Aretha Franklin, Wilson Pickett, Otis Redding. E, ovviamente Beatles, Rolling Stones, Yardbirds...

Os textos em italiano referem-se a trabalhos realizados em virtude do curso de Comunicazione Strategica da Università degli Studi di Firenze.

domingo, 26 de julho de 2009

Mar e montanha na terra da lasanha

Riomaggiore, a primeira das Cinque Terre ao sul da Liguria, na Itália, vista a partir da Via dell'Amore, passarela pregada nos penhascos
Se o seu negócio é praia, esqueça. Aliás, fique no Brasil mesmo, onde estão as melhores do mundo. Agora, se sua intenção e encontrar aquelas entre as paisagens mais encantadores da Europa, diferente da agitação das metrópoles, vai precisar conhecer a Riviera Italiana, a terra onde a montanha encontra o mar. O ponto alto da visita são as Cinque Terre (Monterosso, Corniglia, Manarola, Riomaggiore e Vernazza), vilarejos pregados nas rochas verticais que mergulham para profundezas abissais na província da Liguria, na costa ocidental da Itália.
A paisagem é de filme, romance, ideal para aquela viagem a dois. E também para quem gosta de caminhadas. As cinco cidadezinhas ficam na área do Parco Nazionale Maritimo, que a partir de abril abre seus sentieri (trilhas) para os aficcionados do trekking. Há percursos com todos os graus de dificuldade, com até cinco horas de subidas e descidas, ligando uma vila à outra. Tá com preguiça? Faça a bucólica, bela e romântica caminhada pela Via dell’Amore, entre Riomaggiore e Manarola. Não mais de meia hora com grau de dificuldade 1.
As Cinque Terre posseum ligação rodoviária, mas é preciso sangue frio para dirigir nas estreitas rodovias que serperteiam entre penhascos, além de ser um problema estacionar nos vilarejos. A melhor opção mesmo é ir de trem (um belo passeio, aliás), a partir de Gênova ou de La Spezia, duas cidades nos estremos norte e sul da Ligúria.
Estação ferroviária de Manarola. Toda a linha férrea entre as Cinque Terre corre entre túneis, escavados na rocha maciça
Mas a Riviera Italiana guarda outras maravilhas além das Cinque.
Partindo do lado genovês, comece por Portofino, belíssima cidadezinha e marina com suas imponentes mansões e seus atracadouros particulares. Visite os aconchegantes cafés e as pecaminosas sorveterias. Caminhe por cinco quilômetros apreciando vistas espetaculares na costa até a cidade de Santa Marguerita, onde há excelentes opções gastronômicas.Veja, na cidade logo à frente, o mar dos dois lados no calçadão recém-inaugurado de Setri Levante. Caminhe pela longa praia de seixos em Deiva Marina, Bonassola e Levanto.


"Casinha" no sentiero (caminho) entre as cidades de Santa Marguerita e Portofino, ao norte, já quase chegando em Gênova. Dizem que Berlusconi tem uma casa nessa região para estressantes reuniões de trabalho com jovens militantes do Il Popolo della Libertà... Abaixo, mais ao sul, pôr-do-sol em Sestri Levante
Depois das Cinque Terre, já em La Spezia, pegue o ônibus ou dirija num carro alugado até Portovenere, com sua nova marina de onde saem passeios de barco muito agradáveis pelas Cinque. Aprecie a vista espetacular do golfo de La Spezia emoldurados pelos picos nevados dos Alpi Apuane ao fundo; veja a Isola Palmaria à direita e as montanhas de pedras avermelhas à esquerda, de cima da medieval Igreja de San Pietro (onde ainda são oficiados serviços), sobrevivente entre as ruínas do Castelo de San Pietro.

Io, emoldurado pela baia de Portovenere - última cidade da Liguria ao sul - com os Alpi Apuane toscanos e seus cumes nevados ao fundo

Praias, ciprestes e vinhos na mítica Toscana

Chianti Clássico, Brunello di Moltalcino e Nobile de Montepulciano. Três dos vinhos mais famosos da Itália (e do mundo), separados por uma bucólica e segura rede de pequenas rodovias com menos de 100 quilômetros (SR-222, SP-146). Adicione outros 100 (SS-1 – Via Aurélia) e desembarque no deslumbrante cárcere de Napoleão: Ilha de Elba, rochedo que esconde em suas baias e enseadas as mais belas praias da Itália (e da Europa). É. O imperador francês era tão importante e admirado que até a sua cadeia se parecia mais com paraíso.

Vamos lá. Florença, capital da Toscana, é sua base. Tem aeroporto, mas às vezes você desembarcará em Pisa, o que é bom, porque é pertinho e dá para ver a torre inclinada. Florença possui todas as grandes empresas de aluguel de carro, no centro ou lá mesmo no aeroporto. Uma boa pesquisa e reserva antecipada pela internet pode redundar em barbada, ou seja, uma diária de menos de 30 euros no carro. Tá, não e um carrão italiano, Alfa Romeo etc. Mas os modelos básicos na Europa já vêm com todos opcionais que no Brasil elevam o preço dos carros à categoria luxo.

Programe-se. Uma semana?

Ok. Mais do que suficiente para conhecer as mais deslumbrantes paisagens do centro da Itália, com as indefectíveis colinas verdes, amarelas e vermelhas da relva e das flores (das amapolas; em italiano, papavere) na primavera. As pequenas montanhas, delineadas pelos típicos ciprestes, sempre apresentam um castelinho no topo. Muitos são vilas onde se produz e se pode saborear in loco três dos melhores vinhos do mundo através de degustações guiadas (aqueles dos quais falei em cima, Chianti, Brunello e Nobile). Ah!, aproveite e adquira umas garrafas para levar para o Brasil. Aqui os impostos para importação são tão elevados que os preços são até 10 (isso), dez vezes mais caros.

Olha, além de vinhos, nesse roteiro a cada dúzia de quilômetros surgem novas descobertas nas vielas das mais bem-conservadas cidades medievais da Europa mediterrânea: Montalcino, Montepulciano, Pienza... Tá, você terá alguma dificuldade para estacionar por ali, mas vale o esforço. São cidades em que se visita em uma manhã. Mais adiante, verás Massa Marítima e seu duomo do século XIV, que abriga o túmulo de San Cerbone. Daqui, pegue uma autoestrada (SS-1) e estique até Piombino. De lá, siga num navio (com carro e tudo) em uma curta travessia (40 minutos) pelo mar tirreno até a jóia do Arquipélago Toscano.

Ilha de Elba.

Surpreenda-se com a paisagem impressionista da mistura de vegetação e pedras em cores pastéis do cume do Monte Capane, mil e 19 metros além do mar em uma subida quase vertical por um vertiginoso teleférico de 700 metros. A oeste, avista-se os contornos da Ilha da Córsega, território francês. Para, para, para. Antes de subir montanha de carona, considere uma outra escalada num trekking pelos diversos roteiros, no grau de dificuldade que vocês suportar, pela goegrafia acidentada de Elba, para depois descansar num belo mergulho no mar a partir de uma prainha escondida entre os penhascos (vai, vai, a água pode ser um pouco fria, mas logo se acostuma... E também não repare se algum (a) desinibido (a) fizer um top less ou emergir peladão (ona) da água cristalina).

Ufa! Ufa?

Não acabou, não. Ainda tem a volta: San Gimignano, a cidade das 60 torres; Cortona, do filme Sob o Sol da Toscana... Jesus Cristo! SIENA! (ahh, Siena, Palio, Torre del Mangia e os cafés mais charmosos que alguém possa imaginar), e Greve in Chianti, com suas maravilhosas vinhas e adegas... E...!!! Haja exclamações!

P.S. Está com tempo? Acrescente mais três dias e conheça a reformada Assisi, na província do Marche (a vila medieval, destruída por um terremoto em 1997, foi toda restaurada com pedras cor-de-rosa. Detalhe sórdido... Ficou parecendo a cidade da Barbie). Mas vá lá, estratégias de turismo a parte, Assisi é, para nós brasileiros, Assis, sinômino de fé e devoção. Isso mesmo, é a cidade do santo, onde fica a Basílica e o túmulo de São Francisco, um lugar, aliás, imerso num mistério desconcertante. Há sempre muitos peregrinos rezando e concentração daqueles frades de chinelo de dedo e seus votos de pobreza. Tem também, claro, a lojinha onde você pode comprar aquele terço benedicto para a sua vovozinha.

Assisi é terra ainda da Igreja de Santa Clara, que guarda seu túmulo e suas relíquias. Ironia é que na cidade do santo que mais simboliza o desprendimento das coisas materiais tão martelado pelo cristianismo, nos muitos cafés da avenida principal lê-se a inscrição logo na porta: “Copo com água só mediante pagamento”. Fiquei revoltado.

Bom, já que você está ali pertinho mesmo, vá a Spoleto, admirar seu belo duomo e as belas quedas d´água das Cascatas de Mármore. Gosta de emoções fortes? Tem Perúgia a algumas dezenas de quilômetros. A cidade está na região sísmica mais ativa da Itália, mas tem um belo duomo e culinária convidativa). Não, não dá para perder o Lago Trasimeno, alí do ladinho, 20 quilometrinhos, de carro é um pulo: às margens do lago é ideal passeios de bicicleta, tanto que hotéis e Bed and Brakefests já as incluem nas diárias. Às margens do Trasimeno, no Campo de Sangue, o general cartaginês Aníbal derrotou as até então invencíveis legiões romanas em 217 antes de Cristo, na segunda guerra púnica. É. Pitadinha de história.

Tá gostando? Então, que tal um pulo mais ao sul? Nápoles, Vesúvio, Pompéia, Herculano, Sorrento, Amalfi, Positano, Praiano... Não, não, esquece... Nessa região, ir de carro é coisa de maluco. Experiência própria (teve uma rua onde foi preciso rebater os retrovisores para o Cinquecento!!!! passar). Vai, vai, fica para a próxima. Mas de trem.

P.S.2. As fotos chegam em breve.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Um dia em Oslo (ou) O fascinante parque das estátuas

(Atualizado e ilustrado em 16 de julho de 2009)

Que tal um mini-cruzeiro para Oslo, a impressionante capital da Noruega? É um passeio deslumbrante e, acreditem, adequado ao bolso brasileiro. O mini-cruzeiro foi uma sacada espertíssima da companhia naval que faz a rota diária entre Oslo e a capital dinamarquesa, Copenhagen.
Vamos aos detalhes. É uma viagem bate-e-volta. Dura duas noites, uma para ir, outra para voltar, e o dia no meio delas você passa em Oslo. Na ida e na volta, o navio parte às 17 horas e chega às 9 da matina do outro dia. Numa cabine para duas pessoas, simples, você vai gastar, veja bem, R$ 450,00. Considerando-se que estão incluídos hospedagem (duas noites) para duas pessoas mais o transporte para Oslo, é barato. Mas é só a cabine com roupa de cama, sem toalha, e é pequena. Se você quiser algum luxo, tem as áreas Vips, e os preços vão subindo até os R$ 2,5 mil.
Mas porque é “barato” numa das regiões mais caras do mundo? Porque eles ganham de outra forma.
A concessão para o transporte naval de cargas, veículos e passageiros prevê uma rotina diária na travessia, o que pode acabar oneroso e dar prejuízo. Então, para atrair os viajantes, eles oferecem preço baixo para ganhar nos restaurantes, cafés, free-shops e danceterias a bordo da enorme nave. Nas facilidades dentro do navio, tudo é de primeiríssima classe, e caro, porém opcional. Se você prefere economizar leve a sua farofa, sem problemas, e aprecie a travessia e um dia inteiro na espetacular Oslo. Mas reserve um dinheirinho para o free-shop, que tem promoções interessantes.
Ah!, tem um detalhe chato. Para fazer a reserva pela internet (www.dfdsseaways.dk) você precisa de alguém que lhe auxilie com o dinamarquês ou o norueguês... Se tiver como, vá ao deck da DFDS nos portos de Copenhagen ou Oslo que eles lhe atendem em inglês. Talvez em espanhol.
Se partir de Copenhagen, acorde cedo para ver a chegada pelo estupendo fiorde de Oslo ao amanhecer. Se pagou pelo café da manhã, aprecie a paisagem do deck elevado, pelas amplas janelas de vidro, saboreando guloseimas deliciosas até o desembarque, às 9 horas.
Siga o roteiro a seguir, que é básico e rápido. Afinal, você só tem sete horas em Oslo. Após o desembarque, pegue um táxi até a estação central. Ou caminhe, são uns 25 minutos na primeira avenida que você encontrar à direita. Você saberá quando chegar à estação. Muvuca. Se tiver dúvida, pergunte, todo mundo fala inglês. Ao lado da estação tem um centro de informação ao turista. Lá você troca seus euros por coroas norueguesas sem taxa, compra bilhetes para o transporte público, pega um mapa e pede dicas para um rápido giro. Como você tem de voltar ao navio às 16h30, caminhe pela Karl Johans Gate apreciando as lojas e os monumentos nessa bonita avenida. Faça uma foto com a estátua do dramaturgo Henrik Ibsen em frente ao Teatro Nacional; continue até o Slotsparken, o parque do castelo, que oferece uma bonita vista da cidade; caminhe por entre as árvores do parque; volte ao Nationaltheatret e pegue o metrô até a estação Majorstuen, caminhe 10 minutos pela Kirkeveien (à direita) e chegue ao ponto alto da visita, o espetacular Vigeland Skulpture Park.
O Vigeland Park é o trabalho da vida do escultor norueguês Gustav Vigeland (1869-1943). São mais de 200 esculturas em bronze, ferro e granito espalhadas pela luxuriante área do parque, com suas árvores multicoloridas, especialmente no outono. Deixe-se hipinotizar pelo obelisco com 121 figuras humanas entrelaçadas. Melhor que palavras, as fotos dão a dimensão da grandiosidade da obra de Vigeland.






Imagens do Vigeland Skulpture Park, em Oslo, capital norueguesa

Taí. Então, tire muitas fotos do Vigeland Park, mas reserve uma horinha para uma visita a uns dos bons museus de Oslo: sugiro o Nasjonalmuseet, com obras de Edvard Munch (aquele de O Grito), ou o Vikingshipmuseum, o museu do barco viking. Ao fim, vá à região do porto e aprecie a impressionante paisagem do fiorde de Oslo da área elevada do Museu da Resistência Norueguesa, onde os valentes nativos combateram por algumas horas a invasão nazista na Segunda Guerra Mundial. Marque 16 horas no relógio e volte ao navio, embarque e curta o resto da viagem na boate.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Aspectos da Vida na Escandinávia (VIII)

Os Cães
Cães na Escandinávia têm basicamente os mesmos direitos que as pessoas. São relativamente educados e também muito ensimesmados. Não há assovio capaz de chamar-lhes a atenção. Teve uma lessie (colie, a raça, acho) tão aristocrática em Malmö, na Suécia, que chegou a se lamber depois que eu lhe fiz uma carícia. Aquela conversa de vem cá titil definitivamente não funciona - mas pode ser porque eu ainda não aprendi a me dirigir a eles em dinamarquês. Pode ser. Na França eu vi uma mocinha chamar um gato com os mesmos sons que, no Brasil, nos chamamos as galinhas: tiiiiii-titititi. E é bom ter cuidado com a linguagem dos animais. Na Rússia um bichano chamado de chanim pode se ofender e partir para a briga.
Os cães da Escandinávia estão sempre na moda – ou quase sempre. Dia desses vi um daqueles pequenininhos, de olhos grandes e esbugalhados, daqueles que não páram de tremer - se alguém souber a raça deixe um comentário que depois eu acrescento e dou crédito... Bom, vi o totó com uma camisa da seleção brasileira de futebol – tínhamos acabado de perder para a Argentina na Olimpíada e a dona submeteu o coitadinho àquele constrangimento. Para disfarçar, quando vi o cãozinho apontei o dedo e ri igual ao Nelson dos Simpsons: RRÁÃ. A dona ficou lá me censurando em dinamarquês e consolando o bichinho com um carinho na cabeça.
Particularidade importante. Cachorro anda de metrô numa boa. Tem espaço reservado e todo conforto. Para eles... Para nosotros é um problema, pois os dogs necessitados ficam lá fazendo sexo com nossas panturrilhas.
E os cachorrões, então? Dóbermam, rotiváiler, pitibul (aportuguesei de preguiça de consultar dicionário) saçaricando pelas estações. Você vê aquela onda de gente se movendo e logo conclui: tem um gigante chegando.


Olha um totó aí de guarda nas Sky Mountains, a região mais alta da Dinamarca, com 110 metros de altura: abaixo, belo lago com barquinho, cercado pela vegetação em cores outonais


A passagem canina mais marcante que presenciei foi na estação central de Estocolmo, que é quase uma cidade subterrânea. Uma loirinha de uns 16 anos, miúda, estava sendo levada para passear por um rotiváiler que parecia o boi bandido. Desceu do trem (o cachorro, a dona arrastada pela coleira) e foi direto no saquinho de amendoins nas mãos de uma cara que estava sentado. O cidadão ficou petrificado e soltou o saco no chão. O cão cheirou, viu que não era muito apetitoso e deixou lá. O coitado com a mão cheia de baba, procurando um papel para se limpar.
Então o cão partiu para cima de uma pobre muçulmana à sua frente - eu e Cristina nos afastando lentamente para não chamar a atenção. A mulher empalideceu, dura, soltou um grito surdo, fechou os olhos e esperou pelo assassínio. O cachorro chegou, parou, abaixou o focinho, levantou a saia da coitada e deu uma longa tragada nas suas partes íntimas. Para sorte da moribunda, não se interessou pelo aroma. E se foi, admoestar outros pobres no caminho até o parque mais próximo.
A mulher, coitada, deixou-se cair num banco, respirava ofegante e dizia uma ladainha em árabe, já pensando na novena que teria de empreender para se purificar novamente. Para o Islã, cães são animais impuros. (Houve até uma denúncia contra os EUA da Anistia Internacional porque em Guantánamo, para torturar os muçulmanos feitos prisioneiros no Afeganistão, os guardas norte-americanos soltavam cães nas celas.)

Não é um lorde esse cachorrão aristocrático passeando no quebra-mar do castelo de Helsingor? Aliás, os dinamarqueses gostam de dizer que Helsingor (abaixo) é o castelo de Hamlet, o príncipe shakespeareano da Dinamarca. Volta na foto do cachorro e repara: do outro lado da água fica Helsingborg, na Suécia

Os dinamarqueses gostam mesmo de cães. No fim da tarde muitos estão nas ruas fazendo seus passeios e necessidades – mas (quase) todo mundo limpa a sujeira.

Toque de humor dinamarquês no parque público de Nyborg, uma típica cidadezinha do interior da Dinamarca (abaixo)

No condomínio onde eu e Cristina moramos tem umas duas dezenas de cães. Pelo menos 15 (exagero), de todas as marcas, estão num apartamento. Tem desde aquele do filme Homens de Preto a fila brasileiro.
Acho que o dono é um cara do norte da África. Vi ele fumando um narguilê na área comum dia desses. Quando passei ele ficou um pouco incomodado. Deve ter pensado que eu não conhecia aquela parada e ficaria imaginando que tipo de droga era, que ia chamar polícia e tal... E eu, que nunca fumei narguilê, se tivesse sido convidado, aceitaria.
E aproveitaria para reclamar dos buracos que os seus cães fazem no jardim.

Pois é.

O cara do narguilê se mudou. O Vizinho do lado, um que tem um zoo completo no apartamento, me disse depois que o cidadão foi "convidado" a se mudar, já que não é permitido animais no prédio. (???)


Aspectos da vida na Escandinávia (VII)

A Cerveja

A cerveja não chega a ser uma instituição, mas o povo da Escandinávia gosta muito. Preferem gelada, mas tomam à temperatura ambiente tranqüilamente (às vezes se deixar fora da geladeira congela). Na Dinamarca, a maior cervejaria é a conhecida Calrsberg, mas o povo prefere a Tuborg, um pouco mais cara e mais encorpada. Aliás, acho que esse é o principal critério de qualidade da cerveja, o sabor marcante. As latas de alumínio de 0,5 litro fazem muito sucesso, mas tem de 0,33 também.
A cerveja, como todas as bebidas alcoólicas, são caras, tem de pesquisar as promoções e esquecer um pouco a qualidade se quiser tomar uma a preços brasileiros. O governo deu uma anabolizada nos impostos sobre as bebidas porque o povo daqui e muito chegado a um pileque e achou por bem dar uma controlada.
O curioso sobre a cerveja é a variedade.
Tem de toda cor, nacionalidade, graduação alcoólica, tamanho, lata, descartável e garrafa retornável qual aquelas antigas de guaraná – e de todo preço, claro. A famosa Guinnes, irlandesa, custa o equivalente a R$ 8. Mas a do dia-a-dia custa uns R$ 3 na promoção do supermercado. Normalmente custa uns R$ 4. Gelada é R$ 8 ou R$ 10. No bar dá para tomar não, porque serviço é o que custa mais caro por aqui. Então o povo bebe em casa e já chega bêbado nos pubs.Ó. Paga-se pela embalagem separadamente e o povo já está acostumado a ver o acréscimo na conta do supermercado. E se você quiser devolver (até mesmo a lata), recebe de volta o que pagou. Vale também para qualquer refrigerante.

Aspectos da Vida na Escandinávia (VI)

A Reciclagem

No tópico A Cerveja eu disse que quem devolve a lata ganha um dinheirinho.
É isso mesmo. Vamos aos detalhes.

Todo supermercado recebe as embalagens de bebidas, sejam elas de plástico, vidro e metal, retornáveis ou não. O sistema é prático, simples, eficiente e ecológico, muito bacana mesmo. O cidadão vai fazer suas compras e leva as garrafas e latas que acumulou. Lá no supermercado, todos, é lei, tem uma máquina onde se insere um recipiente de cada vez. A engenhoca reconhece a embalagem e imprime uma lista com o valor de ressarcimento, correspondente ao item. Então o cidadão pega a lista, vai ao caixa e, ou saca a grana, ou abate nas compras.
Aqui tem pet retornável, com o plástico mais duro para que possa ser preenchida novamente. Rende 3 dkk, pouco mais de um real. O vidro das long neck também volta. E cada latinha de alumínio vale 1 dkk, ou seja, perto de 40 centavos de real.
A máquina que recolhe os vasilhames já faz tudo. As retornáveis vão para os respectivos engradados. Latas e plásticos recicláveis são triturados, prensados, amarrados e paletizados para o transporte até a indústria.
Como rende uma graninha boa, e há cidadãos que não se preocupam em recuperar, tem catador de lata aqui, porém em números infinitamente inferiores aos do Brasil. Em Copenhagen tem uma velhinha no metrô que já é conhecida de todos. Em Estocolmo, na Suécia, o contingente de pessoas que vi vasculhando o lixo foi maior.
Certa vez li uma matéria de um jornal de Portugal sobre um português que vive nas ruas de Copenhagen e que, diz, fatura 1.500 euros catando latas e garrafas.
Outras coisas interessantes sobre consciência ecológica por aqui.
Para onde se olha na Dinamarca se vê algum daqueles cataventões de usinas eólicas. Em Copenhagen, há duas grandes usinas geradoras de energia com várias dezenas de ventiladores, um ao sul e outro ano norte da cidade, encravados no meio do mar, que é bem rasinho.
O supermercado dá sacola não. Se quiser, compra. Custa de 3 a 10 coroas dinamarquesas (entre R$1,2 e R$ 4). Todo mundo já sai de casa com as sacolinhas debaixo do braço. Ou cheia de garrafas para devolver.
O detergente bom aqui é o que faz pouca espuma, para gastar menos água na hora de enxaguar. E a economia não fica só no discurso, pois o reflexo na conta é sensível.
Descarga no banheiro? Tem daquelas de válvula não, nem nos prédios públicos! É tudo na caixa, pequena para os padrões brasileiros, que fica sobre o assento. Detalhe importante: tem dois estágios, meia água para o xixi e água inteira para o resto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A madrinha romana

Bepe Severgnini, um jornalista conceituado do Corriere della Sera, escreveu um livro muito interessante chamado A Cabeça do Italiano. Eu o li três meses antes de chegar a Itália. Achei, no dizer deles, molto divertente. Fiquei, porém, um pouco assustado com algumas assertivas de Bepe, como a afirmação de que “ser pedestre na Itália é algo fora de moda”. Mas ele tem completa razão. Aqui se você se posta ao lado da faixa para atravessar a rua esqueça: nenhum motorista vai te dar a menor bola. Mete o pesão no asfalto, respira fundo, feche os olhos e caminhe decidido. O senhor volante daqui só pára se for na pressão, porque certamente ele está atrasado para o trabalho e se te atropelar vai perder muito mais tempo. Depois que você passar ele vai te gritar algum palavrão. Mas não convém também responder e iniciar um bate-boca, porque, tenha isso como certeza, você nunca vai ganhar uma discussão em público com um italiano. Eles são os campões mundiais.
Os italianos, porém, podem ser muito cordiais e solícitos, principalmente se vão com a sua cara. No Palazzo Vecchio, especificamente no Ufficio Anagrafe, uma funcionária, a Sara, me atende como se fôssemos conhecidos de longa data. Só porque uma vez me pegou numa situação difícil e decidiu ajudar. Toda vez que preciso de qualquer coisa vou direto nela. Ela faz o que pode, orienta, até fala inglês para facilitar, apesar de muito ruim. Por orientação dela eu e Cristina decidimos enfrentar a burocracia romana atrás do meu estratto di matrimônio, a nossa certidão de casamento italiana. Foi lá que eu compreendi outra faceta do italiano: o apadrinhamento.
No post anterior dei uma pincelada do que me aguardava em Roma: o Consulado Italiano de Belo Horizonte legalizou a minha certidão de casamento brasileira e mandou para a capital italiana. Para onde só Deus sabia – e Ele não respondeu aos meus e-mails. Enfim, estava em um dos 20 municipi da Comune de Roma. No dia 28 de janeiro acordamos às 5 da matina (matina também é italiano). Pegamos o primeiro Freschiarossa (flecha vermelha), o trem de alta velocidade, inaugurado este ano mesmo, e em 100 minutos estávamos na Termini de Roma. De lá, metrô até a estação Circus Massimus. Dopo, uma caminhada de 40 minutos ate a Via Petroselli, onde fica a sede do Municipio 1.
Na recepção, perguntei onde ficava o Ufficio A.I.R.E. (Anágrafe dei Italiani Residenti all´Estero) já esperando a réplica do guardinha: “Tem apuntamento (hora marcada)?” - Respondi que tinha, mas era mentira. “Secondo piano. Ascensore a destra.” Agradeci e subimos, eu e Cris, à caminho de nosso destino. Na porta a inscrição A.I.R.E.. Entramos. Dentro, umas 12 senhoras de meia idade sentadas nas suas mesas atulhadas de papéis. Fiquei lá correndo o olho, esperando alguma coisa, um gesto, um resmungo... Nada. Fiquei naquela paralisia comum aos que sabem que terão de rebolar para resolver um problema insolúvel quando uma mulher entra na sala. Vai à mesinha do café, serve-se, assopra, espera o vapor se dissipar, sorve o líquido marrom calmamente, em três goles. Vira-se para nós e pergunta: “Cerca qualcosa (o que ceis tão procurando)?”
Gaguejando, respondo que é o ‘ufítio aire’, naquele italiano lindo de morrer, no que ela responde: “Achou, é aqui”. Puts, pensei, posso voltar para o Brasil que daqui não vai sair nada mesmo. Mas prossegui, dizendo que estava com um problema seríssimo e tinha muita urgência em resolver. Na hora eu e Cristina, como já havíamos combinado antes, fizemos cara coitadinho para ver se ela se compadecia. Ela perguntou qual o problema. Disse que era italiano, nascido no Brasil, que morávamos em Florença, que estávamos ali para pegar um estratto di matrimônio, porque éramos casados há mais de quatro anos, e que sem esse documento a Cristina, que fora selecionada para um Master na Universidade de Florença, não poderia freqüentar as aulas. Ela achou a história interessante, foi a sua mesa e mandou que nos sentássemos, mas como havia só uma cadeira, fiquei em pé.
Ela pediu documento, dei o passaporte. Ela inseriu os dados e vaticinou: impossível, você não está inscrito no A.I.R.E. de Roma. Mas tchará: eu já esperava essa resposta porque, para variar, a burocracia italiana me inscreveu no A.I.R.E. como Palazzo Martini e na hora de fazer o passaporte colocaram só o Martini. Em Florença esse problema já havia surgido e a mulherada de lá me achou e fez uma impressão do papel. Saquei o passaporte brasileiro com o papel florentino, e expliquei o problema, ela meteu o Palazzo e me achou. Mas... Para variar, esse seria o menor dos problemas.
- “O seu casamento não está transcrito. Precisa transcrever. Você mandou para o consulado italiano no Brasil?” – perguntou.
- Sim - respondi.
- Quando.
- Em julho
- E o consulado mandou o documento para a Itália?
- Sim.
- Quando?
- No dia 9 de outubro de 2008, corriere diplomático número 6845.
- Como é que você sabe disso?
- Eu liguei no consulado italiano no Brasil uma semana seguida, ameacei alguns dos funcionários de morte e eles ficaram com dó de mim e me informaram.
- Bom, melhor assim, vai demorar bem menos.
- Eu preciso do documento para sexta-feira agora, porque preciso voltar para Florença, hotel em Roma é muito caro.
- Sinto muito, são 40 dias para transcrever. Depois de transcrito você volta aqui e pede uma cópia. São mais 20 dias para ficar pronta. Aí você volta e pega. Mas eles podem mandar por correio, se você preferir, mas aí só Deus sabe quando chega, se chegar, porque a Posta esta uma bagunça, eles estão perdendo um monte de documento...
- ...
- ...
-Éééée....
-Hummm?!?!?
- Sabe?
- Hã?
- É o seguinte (nessa hora virei para a Cristina e falei para fazer a cara de choro), se nós não conseguirmos esse documento até sexta-feira vamos voltar para o Brasil, pressionei. Essa ragazza aqui (dourei a pílula) foi selecionada entre centenas de milhares de estudantes do mundo inteiro pela União Européia para estudar na Europa, e ela escolheu a Itália porque o marido dela é italiano, e ela não vai poder fazer o curso porque aqui na Itália ninguém se importa, ninguém ajuda... Isso não está certo, não é justo, dramatizei.
- Éééé... Venham comigo.
Nessa hora descobri a faceta poderoso chefão do italiano. Eles, principalmente os funcionários públicos, querem que você precise deles, que implore pela ajuda deles, que faça-os se sentir importantes, como se sua vida dependesse deles, e eles, como dádiva, lhe devolvem a felicidade.
Enfim, a mulher nos apadrinhou. Seu nome era Tiziana. Foi conosco até o Ufficio Matrimonio, no andar de baixo. Pegou o número do corriere diplomático, bateu na porta e mandou-nos esperar de fora. Ficou lá uns 15 minutos. Saiu. Disse que não estava fácil porque eram muitos os arquivos para procurar. Nessa hora a mulher do matrimonio saiu da sala, e eu e Cristina vestimos de novo uma cara de pobres-coitados que rivalizava com o gato do Shrek. A fulana chamou a Tiziana para dentro. Mais 10 minutos... Tiziana sai da sala. Expectativa... Eles vão transcrever. Até amanhã fica pronto. Agora vamos no protocolo para ver se eles fazem a cópia.
Ai, no protocolo. No protocolo, a mulher que atendia não estava com cara de muitos amigos. Tiziana falou, contou a história, mostrou as nossas feições chorosas e, ao fim, só conseguiu uma promessa de que ela enviaria pelo correio quando ficasse pronto. Eu intervi, insisti. Precisava do documento até sexta-feira, repeti o dramalhão que apresentei a Tiziana. Em vão. A mulher falou rispidamente que se eu quisesse verificar na sexta que tudo bem, mas que era praticamente impossível. Perguntei seu nome, para forçar uma intimidade, e ela respondeu secamente: não precisa, serei eu mesma que estarei aqui na sexta. Puts. O mais difícil a gente conseguiu, a transcrição, e um fdp do protocolo, dos escalões mais baixos, vai estragar tudo. Quanta injustiça.


Duas imagens clássicas de Roma, em exposição nos Musei Capitolini, o cândido menino com espinho no pé e a loba alimentando Remo e Rômulo

Apesar de todo desconsolo, deveríamos esperar até sexta-feira e, já que estávamos em Roma, fomos curtir a cidade. Coliseu, Panteão, Palatino, Foro Romano, Foro Traiano, Musei Capitolini, um belo passeio; na verdade, um retorno a Roma quatro anos depois, já que na primeira vez, na Fontana di Trevi, jogamos a moedinha para que voltássemos. Perto do Vittorio Emanuele, um monumento belíssimo ao pai da República Italiana, a Via Petroselli. Era quinta-feira e a repartição ficava aberta naquela tarde.
- Vai lá ver se ficou pronto – disse Cristina.
- De jeito nenhum. A mulher vai é ficar mais brava com essa pressão – repiquei.
Mas refleti um pouco e conclui que se fosse para o documento sair ele estaria pronto, e eu não precisaria voltar na sexta-feira. Fui lá. Subi as escadas, entrei no amplo corredor e pelo vidro do guichê do protocolo vi a mulher sentada na mesa, entre toneladas papéis. Olhei para ela. Ela não me viu. Hesitei. Sentei-me numa cadeira ao lado da parede, fora de seu alcance de visão. Meu coração batia forte. E se essa mulher ficasse fula e não me desse o documento? Mas eu já estava lá. Respirei, levantei-me e chamei-a do pior jeito possível: eu não sabia seu nome.
- Psiu.
- Sim?
- Ééééé.
- Pois não?
- Você não se lembra de mim?
- Você tem o recibo, aquele papelzinho verde?
Entreguei a ela, o coração saindo pela boca e pensando. Ela não se lembra? Não é possível!? De costas ela mexia na papelada. Demorou uns três minutos, uma agonia interminável... Depois daqueles segundos de angústia avassaladora, ela virou-se com o documento em mãos. Eu não podia acreditar. Abri um sorriso tão grande e luminoso que ela, ao fim, também sorriu. Depois passou o braço pela pequena abertura do guichê, me apertou a mão e disse: “Vai, meu filho, vai ser feliz.”
Ali mesmo eu entendi tudo o que tinha acontecido. A cidadã do protocolo precisava do momento dela, de ser a dona da situação, de ter meu futuro nas mãos dela para ela poder me abençoar. A boa ação do dia anterior era da Tiziana, não dela, ela precisava do seu momento.
O Bepe já havia me advertido, e eu me esquecera. Os italianos fazem as boas ações para eles mesmos e para os outros. Se ajudam uma velhinha a atravessar a rua, alguém precisa estar olhando. A fulana do protocolo deve ter chegado em casa naquela noite, batido no peito e dito ao marido: “Hoje eu salvei a vida de duas pessoas”.
Pois é.
O documento romano demoraria 60 dias e saiu em 20 horas porque fizemos com que os funcionários nos apadrinhassem.
Isso é a Itália.
Mas não é só isso.
Voltamos a Florença. Fomos à prefeitura, no Ufficio Citadinanza, só para obter algumas informações sobre o processo de concessão do passaporte italiano para a Cristina como esposa de italiano. Antes, fomos enviados para outras quatro repartições, mas já estamos com o couro grosso no vai-vem. Na prefeitura de Firenze, a mesma coisa, o guardinha perguntando se tinha hora marcada, eu mentindo que sim, vai de lá, vai de cá, mandaram-nos falar com a signora Buccheri, no primo piano. Subimos, fui de porta em porta atrás da signora Buccheri, e a encontrei numa sala ao canto, porta aberta, uma cidadã com a cara de pouquissíssimos amigos.
- Signora Buccheri?
- Sim, mas estou só substituindo uma colega que não veio trabalhar hoje. É minha folga. Por favor feche a porta – ordenou, no que eu obedeci.
Do lado de fora da porta, a inscrição, em letras garrafais, alertava: A BUROCRACIA EXIGE UM MÍNIMO DE DOIS ANOS PARA CONCESSÃO DE CIDADANIA AO CONJUGE. POR FAVOR, NÃO INSISTA.