segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Florença, quanta emoção

Opa. Tô aqui.
Esqueci do blog não.
Ele está sim “às moscas”, na definição do meu único leitor-comentarista, meu irmão Pedro, porque momentaneamente sou um blogueiro desconectado.
Para quem não sabe, me mudei da Dinamarca para Florença 18 giorni fa (há 18 dias). Estou engatado nas aulas de italiano e atolado na burocracia azzura, que é uma coisa assim, kafkiana. É uma coisa que não dá para definir com palavras. Se pudesse, seria algo em dinamarquês...
Gente. Nenhum funcionário sabe te informar com precisão o que deve ser feito para tirar uma carteira de identidade, um CPF, um cartão de saúde. Te mandam para um lugar, e nesse lugar a outro, e a outro, outro; até que, vendo o seu semblante desfigurado pelo desconsolo e pelo desespero, um servidor decide resolver tudo num passe de mágica, como se fosse a coisa mais simples do mundo. É emocionante, e insensato... Algo como a cara do freguês: “Estou de bom humor hoje e vou resolver seu problema”. Mas isso acontece uma vez a cada duzentas, claro...
Ontem após dispender muito esforço e sola de sapato consegui fazer meu codice fiscale, o CPF daqui, e com ele agendar com a telefônica uma visita para 9 de fevereiro. Vão ver se no prédio há condições tecnológicas para ter telefone e internet (cidade histórica é assim pessoal). Se não tiver, terei de morrer na maior grana para ter internet pelo celular. Começa com uma chiavetta de 149 euros. Depois, mais 34 euros por mês por três horas-dia e só 9 gigas de download-mês. Haja emoção.
Bom. Como já andei por todas as repartições públicas de Florença, terei de ir a Roma nesta quarta-feira, 28. Preciso dos meus documentos italianos e eles estão lá, enviados pelo Consulado Italiano de Belo Horizonte. Meu espírito já está preparado para uma tentativa de suicídio, ou atentado a bomba, porque na Comune de Roma existem 20 municipi (sub-prefeituras), e o consulado não sabe dizer em qual deles estão meus documentos.
É emoção demais, né não?
Vamos às informações gerais: temperatura média de 7 graus, 3 na mínima e 11 na máxima, chuvinha fina e intermitente. Aluguei um ap no Centro, a duas quadras do Duomo, a Chiesa de Santa Maria dei Fiore (a coisa mais bela e imponente dessa região da Itália). O lugar é ótimo, tem tudo pertinho. Mas... São 60 degraus de escada para chegar ao terceiro andar... Puf... Cansa só de lembrar. Tem um barulho de trânsito infernal, muita fuligem de escapamento (a caca do nariz sai pretinha). Turista japonês aos bandos, evidentemente, tirando foto até de cocô de cachorro - o que tem demais por aqui.
Tem também um grande hospital quase em frente ao ap, e uma média de 18 ambulâncias chegando por dia. Pelo timbre da sirene penso que sejam apenas três viaturas, às quais já dei nome. Pavaroti, Maria Callas e Neguinho da Beija-Flor; esta última porque tem breque, a sirene soluça: pééééròòòò, pééééròòòò, pép... ròòòò. Nesse ritmo, terciário.
Ei?! Peraí, peraí; nem tudo é desalento. Tem coisa boa, claro, e muita, e muito boa.


Acima, uma cópia em bronze do Davi de Michelangelo na Piazzale Michelangelo, onde se tem a melhor vista de Florença, abaixo (quando o tempo e a poluição ajudam, claro). O Davi original está protegido das intempéries na Galeria dell'Accademia


A cidade transpira arte, cultura, diversidade, juventude, nacionalidades. No jornal vi mais de 15 teatros e casas de espetáculos com programação ativa. Em fevereiro tem um show do Oasis – que eu nem gosto. Sem falar nas bocas livres nas igrejas, museus e palácios. Sábado retrasado assistimos ao coro do Lafayette Colegge, Philadelfia, EUA, na Chiesa de Santa Maria Ricci. Ontem - não ficamos sabendo - perdemos a Primavera e o Verão do Vivaldi, na Capela Médici. Dia 8 tem o Inverno e o Outono. Tudo na faixa. Só tem que garimpar as atrações, porque muitas vezes tem só um panfletinho afixado na porta do lugar.
Ao lado do meu prédio tem a Oblate, uma biblioteca que deixa a gente navegar por três horas de graça todos os dias no lap top e uma hora no computador deles. Escrevo nela agora. Fora o acervo de 80 mil livros e 5 mil filmes à disposição. Eles deixam até o pessoal jogar vídeo-game aqui.
Ah! A obra prima de Rafael, a Madonna del Cardellino, que voltou ao público depois de 10 anos de restauração (o jornalista do Estadão disse que o trabalho ficou tão bom que ele ouviu o murmúrio do riachinho no cenário de fundo do quadro). Desse jeito tenho de ir lá conferir.

Obra prima de Rafael, Madonna del Cardellino (pintassilgo): foram 10 anos de restauração

P.S. Neste momento do texto a conexão da biblioteca caiu, e o idiota aqui, que estava escrevendo direto no blog, perdeu tudo o que havia escrito... Tudo acima foi reescrito - quase da mesma maneira.
Pois é. A Madonna do Rafael está exposta no Palazzo Medici Riccardi até o final de fevereiro, e depois volta para a Galeria degli Ufizzi, outra maravilha que só tem rival no Louvre, na minha humilde opinião.
Ih! A réplica do Davi do Michelangelo na Piazza della Signoria está cercada por um pano. Vai tomar um belo banho. No pano só tem um buraco, e quem olha por ele da de cara com o bilau do Davi. Não é lá grande coisa, é vero, mas constrange. Pelo menos à maioria dos curiosos. O melhor, claro, é ir até a Galeria Dell’Accademia para ver o Davi original.
Ó, a série Aspectos da Vida na Escandinávia continua, apesar de eu não morar mais na Dinamarca. É que os textos já estão escritos à espera dos posts.
Enfim, obrigado pela paciência.

Baci a tutti.

Um comentário:

Daniel disse...

Hehe, bom ter noticias sua. Adoro o ritmo do texto e as pinceladas no italiano.
Quanto a burocracia, talvez ela explique porque a máfia italiana é tão boa.
Por aqui tudo joia. Uns dias chovem, outros dias fazem sol.
Abraço grande
Daniel