quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Aspectos da Vida na Escandinávia (VIII)

Os Cães
Cães na Escandinávia têm basicamente os mesmos direitos que as pessoas. São relativamente educados e também muito ensimesmados. Não há assovio capaz de chamar-lhes a atenção. Teve uma lessie (colie, a raça, acho) tão aristocrática em Malmö, na Suécia, que chegou a se lamber depois que eu lhe fiz uma carícia. Aquela conversa de vem cá titil definitivamente não funciona - mas pode ser porque eu ainda não aprendi a me dirigir a eles em dinamarquês. Pode ser. Na França eu vi uma mocinha chamar um gato com os mesmos sons que, no Brasil, nos chamamos as galinhas: tiiiiii-titititi. E é bom ter cuidado com a linguagem dos animais. Na Rússia um bichano chamado de chanim pode se ofender e partir para a briga.
Os cães da Escandinávia estão sempre na moda – ou quase sempre. Dia desses vi um daqueles pequenininhos, de olhos grandes e esbugalhados, daqueles que não páram de tremer - se alguém souber a raça deixe um comentário que depois eu acrescento e dou crédito... Bom, vi o totó com uma camisa da seleção brasileira de futebol – tínhamos acabado de perder para a Argentina na Olimpíada e a dona submeteu o coitadinho àquele constrangimento. Para disfarçar, quando vi o cãozinho apontei o dedo e ri igual ao Nelson dos Simpsons: RRÁÃ. A dona ficou lá me censurando em dinamarquês e consolando o bichinho com um carinho na cabeça.
Particularidade importante. Cachorro anda de metrô numa boa. Tem espaço reservado e todo conforto. Para eles... Para nosotros é um problema, pois os dogs necessitados ficam lá fazendo sexo com nossas panturrilhas.
E os cachorrões, então? Dóbermam, rotiváiler, pitibul (aportuguesei de preguiça de consultar dicionário) saçaricando pelas estações. Você vê aquela onda de gente se movendo e logo conclui: tem um gigante chegando.


Olha um totó aí de guarda nas Sky Mountains, a região mais alta da Dinamarca, com 110 metros de altura: abaixo, belo lago com barquinho, cercado pela vegetação em cores outonais


A passagem canina mais marcante que presenciei foi na estação central de Estocolmo, que é quase uma cidade subterrânea. Uma loirinha de uns 16 anos, miúda, estava sendo levada para passear por um rotiváiler que parecia o boi bandido. Desceu do trem (o cachorro, a dona arrastada pela coleira) e foi direto no saquinho de amendoins nas mãos de uma cara que estava sentado. O cidadão ficou petrificado e soltou o saco no chão. O cão cheirou, viu que não era muito apetitoso e deixou lá. O coitado com a mão cheia de baba, procurando um papel para se limpar.
Então o cão partiu para cima de uma pobre muçulmana à sua frente - eu e Cristina nos afastando lentamente para não chamar a atenção. A mulher empalideceu, dura, soltou um grito surdo, fechou os olhos e esperou pelo assassínio. O cachorro chegou, parou, abaixou o focinho, levantou a saia da coitada e deu uma longa tragada nas suas partes íntimas. Para sorte da moribunda, não se interessou pelo aroma. E se foi, admoestar outros pobres no caminho até o parque mais próximo.
A mulher, coitada, deixou-se cair num banco, respirava ofegante e dizia uma ladainha em árabe, já pensando na novena que teria de empreender para se purificar novamente. Para o Islã, cães são animais impuros. (Houve até uma denúncia contra os EUA da Anistia Internacional porque em Guantánamo, para torturar os muçulmanos feitos prisioneiros no Afeganistão, os guardas norte-americanos soltavam cães nas celas.)

Não é um lorde esse cachorrão aristocrático passeando no quebra-mar do castelo de Helsingor? Aliás, os dinamarqueses gostam de dizer que Helsingor (abaixo) é o castelo de Hamlet, o príncipe shakespeareano da Dinamarca. Volta na foto do cachorro e repara: do outro lado da água fica Helsingborg, na Suécia

Os dinamarqueses gostam mesmo de cães. No fim da tarde muitos estão nas ruas fazendo seus passeios e necessidades – mas (quase) todo mundo limpa a sujeira.

Toque de humor dinamarquês no parque público de Nyborg, uma típica cidadezinha do interior da Dinamarca (abaixo)

No condomínio onde eu e Cristina moramos tem umas duas dezenas de cães. Pelo menos 15 (exagero), de todas as marcas, estão num apartamento. Tem desde aquele do filme Homens de Preto a fila brasileiro.
Acho que o dono é um cara do norte da África. Vi ele fumando um narguilê na área comum dia desses. Quando passei ele ficou um pouco incomodado. Deve ter pensado que eu não conhecia aquela parada e ficaria imaginando que tipo de droga era, que ia chamar polícia e tal... E eu, que nunca fumei narguilê, se tivesse sido convidado, aceitaria.
E aproveitaria para reclamar dos buracos que os seus cães fazem no jardim.

Pois é.

O cara do narguilê se mudou. O Vizinho do lado, um que tem um zoo completo no apartamento, me disse depois que o cidadão foi "convidado" a se mudar, já que não é permitido animais no prédio. (???)


Aspectos da vida na Escandinávia (VII)

A Cerveja

A cerveja não chega a ser uma instituição, mas o povo da Escandinávia gosta muito. Preferem gelada, mas tomam à temperatura ambiente tranqüilamente (às vezes se deixar fora da geladeira congela). Na Dinamarca, a maior cervejaria é a conhecida Calrsberg, mas o povo prefere a Tuborg, um pouco mais cara e mais encorpada. Aliás, acho que esse é o principal critério de qualidade da cerveja, o sabor marcante. As latas de alumínio de 0,5 litro fazem muito sucesso, mas tem de 0,33 também.
A cerveja, como todas as bebidas alcoólicas, são caras, tem de pesquisar as promoções e esquecer um pouco a qualidade se quiser tomar uma a preços brasileiros. O governo deu uma anabolizada nos impostos sobre as bebidas porque o povo daqui e muito chegado a um pileque e achou por bem dar uma controlada.
O curioso sobre a cerveja é a variedade.
Tem de toda cor, nacionalidade, graduação alcoólica, tamanho, lata, descartável e garrafa retornável qual aquelas antigas de guaraná – e de todo preço, claro. A famosa Guinnes, irlandesa, custa o equivalente a R$ 8. Mas a do dia-a-dia custa uns R$ 3 na promoção do supermercado. Normalmente custa uns R$ 4. Gelada é R$ 8 ou R$ 10. No bar dá para tomar não, porque serviço é o que custa mais caro por aqui. Então o povo bebe em casa e já chega bêbado nos pubs.Ó. Paga-se pela embalagem separadamente e o povo já está acostumado a ver o acréscimo na conta do supermercado. E se você quiser devolver (até mesmo a lata), recebe de volta o que pagou. Vale também para qualquer refrigerante.

Aspectos da Vida na Escandinávia (VI)

A Reciclagem

No tópico A Cerveja eu disse que quem devolve a lata ganha um dinheirinho.
É isso mesmo. Vamos aos detalhes.

Todo supermercado recebe as embalagens de bebidas, sejam elas de plástico, vidro e metal, retornáveis ou não. O sistema é prático, simples, eficiente e ecológico, muito bacana mesmo. O cidadão vai fazer suas compras e leva as garrafas e latas que acumulou. Lá no supermercado, todos, é lei, tem uma máquina onde se insere um recipiente de cada vez. A engenhoca reconhece a embalagem e imprime uma lista com o valor de ressarcimento, correspondente ao item. Então o cidadão pega a lista, vai ao caixa e, ou saca a grana, ou abate nas compras.
Aqui tem pet retornável, com o plástico mais duro para que possa ser preenchida novamente. Rende 3 dkk, pouco mais de um real. O vidro das long neck também volta. E cada latinha de alumínio vale 1 dkk, ou seja, perto de 40 centavos de real.
A máquina que recolhe os vasilhames já faz tudo. As retornáveis vão para os respectivos engradados. Latas e plásticos recicláveis são triturados, prensados, amarrados e paletizados para o transporte até a indústria.
Como rende uma graninha boa, e há cidadãos que não se preocupam em recuperar, tem catador de lata aqui, porém em números infinitamente inferiores aos do Brasil. Em Copenhagen tem uma velhinha no metrô que já é conhecida de todos. Em Estocolmo, na Suécia, o contingente de pessoas que vi vasculhando o lixo foi maior.
Certa vez li uma matéria de um jornal de Portugal sobre um português que vive nas ruas de Copenhagen e que, diz, fatura 1.500 euros catando latas e garrafas.
Outras coisas interessantes sobre consciência ecológica por aqui.
Para onde se olha na Dinamarca se vê algum daqueles cataventões de usinas eólicas. Em Copenhagen, há duas grandes usinas geradoras de energia com várias dezenas de ventiladores, um ao sul e outro ano norte da cidade, encravados no meio do mar, que é bem rasinho.
O supermercado dá sacola não. Se quiser, compra. Custa de 3 a 10 coroas dinamarquesas (entre R$1,2 e R$ 4). Todo mundo já sai de casa com as sacolinhas debaixo do braço. Ou cheia de garrafas para devolver.
O detergente bom aqui é o que faz pouca espuma, para gastar menos água na hora de enxaguar. E a economia não fica só no discurso, pois o reflexo na conta é sensível.
Descarga no banheiro? Tem daquelas de válvula não, nem nos prédios públicos! É tudo na caixa, pequena para os padrões brasileiros, que fica sobre o assento. Detalhe importante: tem dois estágios, meia água para o xixi e água inteira para o resto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A madrinha romana

Bepe Severgnini, um jornalista conceituado do Corriere della Sera, escreveu um livro muito interessante chamado A Cabeça do Italiano. Eu o li três meses antes de chegar a Itália. Achei, no dizer deles, molto divertente. Fiquei, porém, um pouco assustado com algumas assertivas de Bepe, como a afirmação de que “ser pedestre na Itália é algo fora de moda”. Mas ele tem completa razão. Aqui se você se posta ao lado da faixa para atravessar a rua esqueça: nenhum motorista vai te dar a menor bola. Mete o pesão no asfalto, respira fundo, feche os olhos e caminhe decidido. O senhor volante daqui só pára se for na pressão, porque certamente ele está atrasado para o trabalho e se te atropelar vai perder muito mais tempo. Depois que você passar ele vai te gritar algum palavrão. Mas não convém também responder e iniciar um bate-boca, porque, tenha isso como certeza, você nunca vai ganhar uma discussão em público com um italiano. Eles são os campões mundiais.
Os italianos, porém, podem ser muito cordiais e solícitos, principalmente se vão com a sua cara. No Palazzo Vecchio, especificamente no Ufficio Anagrafe, uma funcionária, a Sara, me atende como se fôssemos conhecidos de longa data. Só porque uma vez me pegou numa situação difícil e decidiu ajudar. Toda vez que preciso de qualquer coisa vou direto nela. Ela faz o que pode, orienta, até fala inglês para facilitar, apesar de muito ruim. Por orientação dela eu e Cristina decidimos enfrentar a burocracia romana atrás do meu estratto di matrimônio, a nossa certidão de casamento italiana. Foi lá que eu compreendi outra faceta do italiano: o apadrinhamento.
No post anterior dei uma pincelada do que me aguardava em Roma: o Consulado Italiano de Belo Horizonte legalizou a minha certidão de casamento brasileira e mandou para a capital italiana. Para onde só Deus sabia – e Ele não respondeu aos meus e-mails. Enfim, estava em um dos 20 municipi da Comune de Roma. No dia 28 de janeiro acordamos às 5 da matina (matina também é italiano). Pegamos o primeiro Freschiarossa (flecha vermelha), o trem de alta velocidade, inaugurado este ano mesmo, e em 100 minutos estávamos na Termini de Roma. De lá, metrô até a estação Circus Massimus. Dopo, uma caminhada de 40 minutos ate a Via Petroselli, onde fica a sede do Municipio 1.
Na recepção, perguntei onde ficava o Ufficio A.I.R.E. (Anágrafe dei Italiani Residenti all´Estero) já esperando a réplica do guardinha: “Tem apuntamento (hora marcada)?” - Respondi que tinha, mas era mentira. “Secondo piano. Ascensore a destra.” Agradeci e subimos, eu e Cris, à caminho de nosso destino. Na porta a inscrição A.I.R.E.. Entramos. Dentro, umas 12 senhoras de meia idade sentadas nas suas mesas atulhadas de papéis. Fiquei lá correndo o olho, esperando alguma coisa, um gesto, um resmungo... Nada. Fiquei naquela paralisia comum aos que sabem que terão de rebolar para resolver um problema insolúvel quando uma mulher entra na sala. Vai à mesinha do café, serve-se, assopra, espera o vapor se dissipar, sorve o líquido marrom calmamente, em três goles. Vira-se para nós e pergunta: “Cerca qualcosa (o que ceis tão procurando)?”
Gaguejando, respondo que é o ‘ufítio aire’, naquele italiano lindo de morrer, no que ela responde: “Achou, é aqui”. Puts, pensei, posso voltar para o Brasil que daqui não vai sair nada mesmo. Mas prossegui, dizendo que estava com um problema seríssimo e tinha muita urgência em resolver. Na hora eu e Cristina, como já havíamos combinado antes, fizemos cara coitadinho para ver se ela se compadecia. Ela perguntou qual o problema. Disse que era italiano, nascido no Brasil, que morávamos em Florença, que estávamos ali para pegar um estratto di matrimônio, porque éramos casados há mais de quatro anos, e que sem esse documento a Cristina, que fora selecionada para um Master na Universidade de Florença, não poderia freqüentar as aulas. Ela achou a história interessante, foi a sua mesa e mandou que nos sentássemos, mas como havia só uma cadeira, fiquei em pé.
Ela pediu documento, dei o passaporte. Ela inseriu os dados e vaticinou: impossível, você não está inscrito no A.I.R.E. de Roma. Mas tchará: eu já esperava essa resposta porque, para variar, a burocracia italiana me inscreveu no A.I.R.E. como Palazzo Martini e na hora de fazer o passaporte colocaram só o Martini. Em Florença esse problema já havia surgido e a mulherada de lá me achou e fez uma impressão do papel. Saquei o passaporte brasileiro com o papel florentino, e expliquei o problema, ela meteu o Palazzo e me achou. Mas... Para variar, esse seria o menor dos problemas.
- “O seu casamento não está transcrito. Precisa transcrever. Você mandou para o consulado italiano no Brasil?” – perguntou.
- Sim - respondi.
- Quando.
- Em julho
- E o consulado mandou o documento para a Itália?
- Sim.
- Quando?
- No dia 9 de outubro de 2008, corriere diplomático número 6845.
- Como é que você sabe disso?
- Eu liguei no consulado italiano no Brasil uma semana seguida, ameacei alguns dos funcionários de morte e eles ficaram com dó de mim e me informaram.
- Bom, melhor assim, vai demorar bem menos.
- Eu preciso do documento para sexta-feira agora, porque preciso voltar para Florença, hotel em Roma é muito caro.
- Sinto muito, são 40 dias para transcrever. Depois de transcrito você volta aqui e pede uma cópia. São mais 20 dias para ficar pronta. Aí você volta e pega. Mas eles podem mandar por correio, se você preferir, mas aí só Deus sabe quando chega, se chegar, porque a Posta esta uma bagunça, eles estão perdendo um monte de documento...
- ...
- ...
-Éééée....
-Hummm?!?!?
- Sabe?
- Hã?
- É o seguinte (nessa hora virei para a Cristina e falei para fazer a cara de choro), se nós não conseguirmos esse documento até sexta-feira vamos voltar para o Brasil, pressionei. Essa ragazza aqui (dourei a pílula) foi selecionada entre centenas de milhares de estudantes do mundo inteiro pela União Européia para estudar na Europa, e ela escolheu a Itália porque o marido dela é italiano, e ela não vai poder fazer o curso porque aqui na Itália ninguém se importa, ninguém ajuda... Isso não está certo, não é justo, dramatizei.
- Éééé... Venham comigo.
Nessa hora descobri a faceta poderoso chefão do italiano. Eles, principalmente os funcionários públicos, querem que você precise deles, que implore pela ajuda deles, que faça-os se sentir importantes, como se sua vida dependesse deles, e eles, como dádiva, lhe devolvem a felicidade.
Enfim, a mulher nos apadrinhou. Seu nome era Tiziana. Foi conosco até o Ufficio Matrimonio, no andar de baixo. Pegou o número do corriere diplomático, bateu na porta e mandou-nos esperar de fora. Ficou lá uns 15 minutos. Saiu. Disse que não estava fácil porque eram muitos os arquivos para procurar. Nessa hora a mulher do matrimonio saiu da sala, e eu e Cristina vestimos de novo uma cara de pobres-coitados que rivalizava com o gato do Shrek. A fulana chamou a Tiziana para dentro. Mais 10 minutos... Tiziana sai da sala. Expectativa... Eles vão transcrever. Até amanhã fica pronto. Agora vamos no protocolo para ver se eles fazem a cópia.
Ai, no protocolo. No protocolo, a mulher que atendia não estava com cara de muitos amigos. Tiziana falou, contou a história, mostrou as nossas feições chorosas e, ao fim, só conseguiu uma promessa de que ela enviaria pelo correio quando ficasse pronto. Eu intervi, insisti. Precisava do documento até sexta-feira, repeti o dramalhão que apresentei a Tiziana. Em vão. A mulher falou rispidamente que se eu quisesse verificar na sexta que tudo bem, mas que era praticamente impossível. Perguntei seu nome, para forçar uma intimidade, e ela respondeu secamente: não precisa, serei eu mesma que estarei aqui na sexta. Puts. O mais difícil a gente conseguiu, a transcrição, e um fdp do protocolo, dos escalões mais baixos, vai estragar tudo. Quanta injustiça.


Duas imagens clássicas de Roma, em exposição nos Musei Capitolini, o cândido menino com espinho no pé e a loba alimentando Remo e Rômulo

Apesar de todo desconsolo, deveríamos esperar até sexta-feira e, já que estávamos em Roma, fomos curtir a cidade. Coliseu, Panteão, Palatino, Foro Romano, Foro Traiano, Musei Capitolini, um belo passeio; na verdade, um retorno a Roma quatro anos depois, já que na primeira vez, na Fontana di Trevi, jogamos a moedinha para que voltássemos. Perto do Vittorio Emanuele, um monumento belíssimo ao pai da República Italiana, a Via Petroselli. Era quinta-feira e a repartição ficava aberta naquela tarde.
- Vai lá ver se ficou pronto – disse Cristina.
- De jeito nenhum. A mulher vai é ficar mais brava com essa pressão – repiquei.
Mas refleti um pouco e conclui que se fosse para o documento sair ele estaria pronto, e eu não precisaria voltar na sexta-feira. Fui lá. Subi as escadas, entrei no amplo corredor e pelo vidro do guichê do protocolo vi a mulher sentada na mesa, entre toneladas papéis. Olhei para ela. Ela não me viu. Hesitei. Sentei-me numa cadeira ao lado da parede, fora de seu alcance de visão. Meu coração batia forte. E se essa mulher ficasse fula e não me desse o documento? Mas eu já estava lá. Respirei, levantei-me e chamei-a do pior jeito possível: eu não sabia seu nome.
- Psiu.
- Sim?
- Ééééé.
- Pois não?
- Você não se lembra de mim?
- Você tem o recibo, aquele papelzinho verde?
Entreguei a ela, o coração saindo pela boca e pensando. Ela não se lembra? Não é possível!? De costas ela mexia na papelada. Demorou uns três minutos, uma agonia interminável... Depois daqueles segundos de angústia avassaladora, ela virou-se com o documento em mãos. Eu não podia acreditar. Abri um sorriso tão grande e luminoso que ela, ao fim, também sorriu. Depois passou o braço pela pequena abertura do guichê, me apertou a mão e disse: “Vai, meu filho, vai ser feliz.”
Ali mesmo eu entendi tudo o que tinha acontecido. A cidadã do protocolo precisava do momento dela, de ser a dona da situação, de ter meu futuro nas mãos dela para ela poder me abençoar. A boa ação do dia anterior era da Tiziana, não dela, ela precisava do seu momento.
O Bepe já havia me advertido, e eu me esquecera. Os italianos fazem as boas ações para eles mesmos e para os outros. Se ajudam uma velhinha a atravessar a rua, alguém precisa estar olhando. A fulana do protocolo deve ter chegado em casa naquela noite, batido no peito e dito ao marido: “Hoje eu salvei a vida de duas pessoas”.
Pois é.
O documento romano demoraria 60 dias e saiu em 20 horas porque fizemos com que os funcionários nos apadrinhassem.
Isso é a Itália.
Mas não é só isso.
Voltamos a Florença. Fomos à prefeitura, no Ufficio Citadinanza, só para obter algumas informações sobre o processo de concessão do passaporte italiano para a Cristina como esposa de italiano. Antes, fomos enviados para outras quatro repartições, mas já estamos com o couro grosso no vai-vem. Na prefeitura de Firenze, a mesma coisa, o guardinha perguntando se tinha hora marcada, eu mentindo que sim, vai de lá, vai de cá, mandaram-nos falar com a signora Buccheri, no primo piano. Subimos, fui de porta em porta atrás da signora Buccheri, e a encontrei numa sala ao canto, porta aberta, uma cidadã com a cara de pouquissíssimos amigos.
- Signora Buccheri?
- Sim, mas estou só substituindo uma colega que não veio trabalhar hoje. É minha folga. Por favor feche a porta – ordenou, no que eu obedeci.
Do lado de fora da porta, a inscrição, em letras garrafais, alertava: A BUROCRACIA EXIGE UM MÍNIMO DE DOIS ANOS PARA CONCESSÃO DE CIDADANIA AO CONJUGE. POR FAVOR, NÃO INSISTA.