sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A madrinha romana

Bepe Severgnini, um jornalista conceituado do Corriere della Sera, escreveu um livro muito interessante chamado A Cabeça do Italiano. Eu o li três meses antes de chegar a Itália. Achei, no dizer deles, molto divertente. Fiquei, porém, um pouco assustado com algumas assertivas de Bepe, como a afirmação de que “ser pedestre na Itália é algo fora de moda”. Mas ele tem completa razão. Aqui se você se posta ao lado da faixa para atravessar a rua esqueça: nenhum motorista vai te dar a menor bola. Mete o pesão no asfalto, respira fundo, feche os olhos e caminhe decidido. O senhor volante daqui só pára se for na pressão, porque certamente ele está atrasado para o trabalho e se te atropelar vai perder muito mais tempo. Depois que você passar ele vai te gritar algum palavrão. Mas não convém também responder e iniciar um bate-boca, porque, tenha isso como certeza, você nunca vai ganhar uma discussão em público com um italiano. Eles são os campões mundiais.
Os italianos, porém, podem ser muito cordiais e solícitos, principalmente se vão com a sua cara. No Palazzo Vecchio, especificamente no Ufficio Anagrafe, uma funcionária, a Sara, me atende como se fôssemos conhecidos de longa data. Só porque uma vez me pegou numa situação difícil e decidiu ajudar. Toda vez que preciso de qualquer coisa vou direto nela. Ela faz o que pode, orienta, até fala inglês para facilitar, apesar de muito ruim. Por orientação dela eu e Cristina decidimos enfrentar a burocracia romana atrás do meu estratto di matrimônio, a nossa certidão de casamento italiana. Foi lá que eu compreendi outra faceta do italiano: o apadrinhamento.
No post anterior dei uma pincelada do que me aguardava em Roma: o Consulado Italiano de Belo Horizonte legalizou a minha certidão de casamento brasileira e mandou para a capital italiana. Para onde só Deus sabia – e Ele não respondeu aos meus e-mails. Enfim, estava em um dos 20 municipi da Comune de Roma. No dia 28 de janeiro acordamos às 5 da matina (matina também é italiano). Pegamos o primeiro Freschiarossa (flecha vermelha), o trem de alta velocidade, inaugurado este ano mesmo, e em 100 minutos estávamos na Termini de Roma. De lá, metrô até a estação Circus Massimus. Dopo, uma caminhada de 40 minutos ate a Via Petroselli, onde fica a sede do Municipio 1.
Na recepção, perguntei onde ficava o Ufficio A.I.R.E. (Anágrafe dei Italiani Residenti all´Estero) já esperando a réplica do guardinha: “Tem apuntamento (hora marcada)?” - Respondi que tinha, mas era mentira. “Secondo piano. Ascensore a destra.” Agradeci e subimos, eu e Cris, à caminho de nosso destino. Na porta a inscrição A.I.R.E.. Entramos. Dentro, umas 12 senhoras de meia idade sentadas nas suas mesas atulhadas de papéis. Fiquei lá correndo o olho, esperando alguma coisa, um gesto, um resmungo... Nada. Fiquei naquela paralisia comum aos que sabem que terão de rebolar para resolver um problema insolúvel quando uma mulher entra na sala. Vai à mesinha do café, serve-se, assopra, espera o vapor se dissipar, sorve o líquido marrom calmamente, em três goles. Vira-se para nós e pergunta: “Cerca qualcosa (o que ceis tão procurando)?”
Gaguejando, respondo que é o ‘ufítio aire’, naquele italiano lindo de morrer, no que ela responde: “Achou, é aqui”. Puts, pensei, posso voltar para o Brasil que daqui não vai sair nada mesmo. Mas prossegui, dizendo que estava com um problema seríssimo e tinha muita urgência em resolver. Na hora eu e Cristina, como já havíamos combinado antes, fizemos cara coitadinho para ver se ela se compadecia. Ela perguntou qual o problema. Disse que era italiano, nascido no Brasil, que morávamos em Florença, que estávamos ali para pegar um estratto di matrimônio, porque éramos casados há mais de quatro anos, e que sem esse documento a Cristina, que fora selecionada para um Master na Universidade de Florença, não poderia freqüentar as aulas. Ela achou a história interessante, foi a sua mesa e mandou que nos sentássemos, mas como havia só uma cadeira, fiquei em pé.
Ela pediu documento, dei o passaporte. Ela inseriu os dados e vaticinou: impossível, você não está inscrito no A.I.R.E. de Roma. Mas tchará: eu já esperava essa resposta porque, para variar, a burocracia italiana me inscreveu no A.I.R.E. como Palazzo Martini e na hora de fazer o passaporte colocaram só o Martini. Em Florença esse problema já havia surgido e a mulherada de lá me achou e fez uma impressão do papel. Saquei o passaporte brasileiro com o papel florentino, e expliquei o problema, ela meteu o Palazzo e me achou. Mas... Para variar, esse seria o menor dos problemas.
- “O seu casamento não está transcrito. Precisa transcrever. Você mandou para o consulado italiano no Brasil?” – perguntou.
- Sim - respondi.
- Quando.
- Em julho
- E o consulado mandou o documento para a Itália?
- Sim.
- Quando?
- No dia 9 de outubro de 2008, corriere diplomático número 6845.
- Como é que você sabe disso?
- Eu liguei no consulado italiano no Brasil uma semana seguida, ameacei alguns dos funcionários de morte e eles ficaram com dó de mim e me informaram.
- Bom, melhor assim, vai demorar bem menos.
- Eu preciso do documento para sexta-feira agora, porque preciso voltar para Florença, hotel em Roma é muito caro.
- Sinto muito, são 40 dias para transcrever. Depois de transcrito você volta aqui e pede uma cópia. São mais 20 dias para ficar pronta. Aí você volta e pega. Mas eles podem mandar por correio, se você preferir, mas aí só Deus sabe quando chega, se chegar, porque a Posta esta uma bagunça, eles estão perdendo um monte de documento...
- ...
- ...
-Éééée....
-Hummm?!?!?
- Sabe?
- Hã?
- É o seguinte (nessa hora virei para a Cristina e falei para fazer a cara de choro), se nós não conseguirmos esse documento até sexta-feira vamos voltar para o Brasil, pressionei. Essa ragazza aqui (dourei a pílula) foi selecionada entre centenas de milhares de estudantes do mundo inteiro pela União Européia para estudar na Europa, e ela escolheu a Itália porque o marido dela é italiano, e ela não vai poder fazer o curso porque aqui na Itália ninguém se importa, ninguém ajuda... Isso não está certo, não é justo, dramatizei.
- Éééé... Venham comigo.
Nessa hora descobri a faceta poderoso chefão do italiano. Eles, principalmente os funcionários públicos, querem que você precise deles, que implore pela ajuda deles, que faça-os se sentir importantes, como se sua vida dependesse deles, e eles, como dádiva, lhe devolvem a felicidade.
Enfim, a mulher nos apadrinhou. Seu nome era Tiziana. Foi conosco até o Ufficio Matrimonio, no andar de baixo. Pegou o número do corriere diplomático, bateu na porta e mandou-nos esperar de fora. Ficou lá uns 15 minutos. Saiu. Disse que não estava fácil porque eram muitos os arquivos para procurar. Nessa hora a mulher do matrimonio saiu da sala, e eu e Cristina vestimos de novo uma cara de pobres-coitados que rivalizava com o gato do Shrek. A fulana chamou a Tiziana para dentro. Mais 10 minutos... Tiziana sai da sala. Expectativa... Eles vão transcrever. Até amanhã fica pronto. Agora vamos no protocolo para ver se eles fazem a cópia.
Ai, no protocolo. No protocolo, a mulher que atendia não estava com cara de muitos amigos. Tiziana falou, contou a história, mostrou as nossas feições chorosas e, ao fim, só conseguiu uma promessa de que ela enviaria pelo correio quando ficasse pronto. Eu intervi, insisti. Precisava do documento até sexta-feira, repeti o dramalhão que apresentei a Tiziana. Em vão. A mulher falou rispidamente que se eu quisesse verificar na sexta que tudo bem, mas que era praticamente impossível. Perguntei seu nome, para forçar uma intimidade, e ela respondeu secamente: não precisa, serei eu mesma que estarei aqui na sexta. Puts. O mais difícil a gente conseguiu, a transcrição, e um fdp do protocolo, dos escalões mais baixos, vai estragar tudo. Quanta injustiça.


Duas imagens clássicas de Roma, em exposição nos Musei Capitolini, o cândido menino com espinho no pé e a loba alimentando Remo e Rômulo

Apesar de todo desconsolo, deveríamos esperar até sexta-feira e, já que estávamos em Roma, fomos curtir a cidade. Coliseu, Panteão, Palatino, Foro Romano, Foro Traiano, Musei Capitolini, um belo passeio; na verdade, um retorno a Roma quatro anos depois, já que na primeira vez, na Fontana di Trevi, jogamos a moedinha para que voltássemos. Perto do Vittorio Emanuele, um monumento belíssimo ao pai da República Italiana, a Via Petroselli. Era quinta-feira e a repartição ficava aberta naquela tarde.
- Vai lá ver se ficou pronto – disse Cristina.
- De jeito nenhum. A mulher vai é ficar mais brava com essa pressão – repiquei.
Mas refleti um pouco e conclui que se fosse para o documento sair ele estaria pronto, e eu não precisaria voltar na sexta-feira. Fui lá. Subi as escadas, entrei no amplo corredor e pelo vidro do guichê do protocolo vi a mulher sentada na mesa, entre toneladas papéis. Olhei para ela. Ela não me viu. Hesitei. Sentei-me numa cadeira ao lado da parede, fora de seu alcance de visão. Meu coração batia forte. E se essa mulher ficasse fula e não me desse o documento? Mas eu já estava lá. Respirei, levantei-me e chamei-a do pior jeito possível: eu não sabia seu nome.
- Psiu.
- Sim?
- Ééééé.
- Pois não?
- Você não se lembra de mim?
- Você tem o recibo, aquele papelzinho verde?
Entreguei a ela, o coração saindo pela boca e pensando. Ela não se lembra? Não é possível!? De costas ela mexia na papelada. Demorou uns três minutos, uma agonia interminável... Depois daqueles segundos de angústia avassaladora, ela virou-se com o documento em mãos. Eu não podia acreditar. Abri um sorriso tão grande e luminoso que ela, ao fim, também sorriu. Depois passou o braço pela pequena abertura do guichê, me apertou a mão e disse: “Vai, meu filho, vai ser feliz.”
Ali mesmo eu entendi tudo o que tinha acontecido. A cidadã do protocolo precisava do momento dela, de ser a dona da situação, de ter meu futuro nas mãos dela para ela poder me abençoar. A boa ação do dia anterior era da Tiziana, não dela, ela precisava do seu momento.
O Bepe já havia me advertido, e eu me esquecera. Os italianos fazem as boas ações para eles mesmos e para os outros. Se ajudam uma velhinha a atravessar a rua, alguém precisa estar olhando. A fulana do protocolo deve ter chegado em casa naquela noite, batido no peito e dito ao marido: “Hoje eu salvei a vida de duas pessoas”.
Pois é.
O documento romano demoraria 60 dias e saiu em 20 horas porque fizemos com que os funcionários nos apadrinhassem.
Isso é a Itália.
Mas não é só isso.
Voltamos a Florença. Fomos à prefeitura, no Ufficio Citadinanza, só para obter algumas informações sobre o processo de concessão do passaporte italiano para a Cristina como esposa de italiano. Antes, fomos enviados para outras quatro repartições, mas já estamos com o couro grosso no vai-vem. Na prefeitura de Firenze, a mesma coisa, o guardinha perguntando se tinha hora marcada, eu mentindo que sim, vai de lá, vai de cá, mandaram-nos falar com a signora Buccheri, no primo piano. Subimos, fui de porta em porta atrás da signora Buccheri, e a encontrei numa sala ao canto, porta aberta, uma cidadã com a cara de pouquissíssimos amigos.
- Signora Buccheri?
- Sim, mas estou só substituindo uma colega que não veio trabalhar hoje. É minha folga. Por favor feche a porta – ordenou, no que eu obedeci.
Do lado de fora da porta, a inscrição, em letras garrafais, alertava: A BUROCRACIA EXIGE UM MÍNIMO DE DOIS ANOS PARA CONCESSÃO DE CIDADANIA AO CONJUGE. POR FAVOR, NÃO INSISTA.

3 comentários:

Pedro Palazzo Luccas disse...

huahuahuahuahuahaua
hilário.
mas, e aí? já era pra cris? como fica?
tem que dar um jeito da buchierri ser the godmather
hahahaha.
acho que vou colocar fogo no meu passaporte.
pelo seus relatos ele de nada vai me servir...

Paola disse...

A sua historia me lembra muito uma cronica do italiano Umberto Eco sobre quando ele perdeu os documentos numa passagem por Amsterdam. Com a ajuda da policia holandesa, ele conseguiu resolver 90% dos problemas, mas quando voltou a Italia, teve que mover meio mundo para conseguir tirar uma segunda via da carteira de motorista. Acho que voce vai dar umas boas risadas e se identificar bastante quando ler. Esta no livro "Como viajar com um salmao" (acho que o titulo e esse, porque li esse livro em ingles)

Bjos pra ti e pra Cris

Loisse Rodrigues disse...

hahahahaha
Estava aqui perturbada. Há meses não consigo ler um livro que me prenda de verdade a atenção. Confesso que seu texto me "pescou".
Muito bom.
De verdade.