terça-feira, 18 de agosto de 2009

A chacina madrileña

Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri, lotada para as
apresentações de 27 de maio de 2009, nas Fiestas de San Isidro

Eu achava que não teria estômago suficiente para ir naquele lugar. Apesar de ser programa obrigatório para um turista na Espanha, resisti muito, confesso. Até torci para não conseguir os ingressos. Mas, depois de cortar meia Calle de Alcalá numa caminhada de duas horas sob um sol inclemente, lá estava, escondida entre magníficos edifícios, a livraria onde eu encontraria as entradas para a mítica Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri, capital espanhola. Na verdade, uma conjunção de fatores conspirou para que eu presenciasse um espetáculo perigoso, degradante e inesquecível na tarde daquela terça-feira. Primeiro, porque não acontecem eventos desse tipo às terças-feiras. Exceção feita a maio, mês das Fiestas de San Isidro, quando são realizadas touradas diariamente. Pensei muito antes de ir àquele lugar de crueldade. Mas fui em consideração ao meu sogro, o Professor Xan, um aficcionado por touradas que não perdeu uma durante os meses em que esteve em Madri à época do seu PhD, na década de 80. Pois não é que o próprio Xan se surpreenderia com as emoções reservadas àquela tarde!

O programa anunciava Los Novillos de... De... Sei lá quem, Dom Pompelmo, algo assim, esqueci o nome do “cafetão”. Enfim, os novillos referiam-se aos jovens animais, mas cheguei a pensar que fossem os toureiros de pouca idade que iriam se apresentariam naquele dia. Rapazes na casa dos 18 anos. Três, e cada um deveria assassinar dois animais. Uma carnificina.

Do que vi, compreendi que uma tourada não é aquela coisa de Davi contra Golias, ou seja, um homem de 80 quilos contra uma besta de 600, como gostariam de fazer crer os defensores dessa tradição. Aqui nesse blog tem uma explicação detalhada do ritual da tourada. Não é bem assim. Consiste em irritar, sacanear, humilhar e depois assassinar um touro com uma espada de maneira desigual. Na arena, a sacanagem contra o touro deve demorar, mas a morte, especificamente, deverá acontecer o mais rápido possível, porque a platéia, compadecida do sofrimento do animal (quanta hipocrisia), deseja uma morte veloz.

Começa assim: ainda nos subterrâneos da arena, mete-se um agulhão na região onde o nosso zebu tem o cupim (veja bem que taurinos europeus não possuem o cupim pronunciado). Fica um lacinho para fora do espeto, esvoaçante. Abre-se a porta e o animal entra correndo, já está enfurecido por conta daquele furo. Na arena, alguns aprendizes de toureiro, com capas cor-de-rosa (vermelha só a do figurão principal), ficam lá enchendo o saco, aparecendo e se escondendo a cada corrida do animal.

Quando ele já está arfante, língua de fora, aparecem os picadores. É por eles perpetrada a crueldade principal. Vêm montados em um cavalo-blindado (e vendado, para não ver o que tem de enfrentar). Os picadores empunham uma lança de dois metros em cuja ponta fica uma pinça afiada de dois por três centímetros. O touro é estumado a investir contra o cavalo para que, de cima, o picador perfure ferozmente a região logo acima do pescoço do animal. Na tourada, esse procedimento representa igualar as condições entre touro e toureiro. O animal sangra copiosamente pelo corte. Na tarde de San Isidro, para espanto do Professor Xan, que nunca tinha visto coisa semelhante, um touro derrubou um dos cavalos com picador e tudo. Foi necessária a intervenção dos responsáveis pelas distrações para que equino e picador se recuperassem.

Após o picador, aparece uma figura, o banderillero, armada com apenas dois espetos emplumados. Esse sim vai encarar o touro de frente. Ele atrai a atenção do animal sobre si, e, quando o touro dispara no seu rumo, este sai correndo em diagonal, se encontra com a fera no meio do caminho e finca as banderillas logo atrás do pescoço, onde há terminações nervosas. Naquela terça-feira de San Isidro, logo na primeira sessão, um desses banderilleros calculou mal sua corrida e teve de desviar no meio do caminho, a besta no seu encalço. Sério. O cidadão, naquele momento, faria Usaim Bolt comer poeira. Disparou em diração à amurada que separa arena dos espectadores, boi no encalço, e num impulso jogou-se sobre a platéia. Salto em altura para Sotomayor nenhum botar defeito. O público foi ao delírio.

Mas aquela seria apenas só mais uma das emoções do dia.

Acima um banderillero no ato, homem que encara o touro sem capa nem espada. Abaixo, um picador, que sangra o animal para deixá-lo em "igualdade de condições" com o toureiro

Bem. Da tarde daquela terça-feira, ainda lembro-me dos nomes de dois toureiros: um era o Lechuga, porque quer dizer alface em espanhol (e porque um espanhol não parava de dizer “mui mal, Lechuga, mui maaaal”) e o outro era Juan Carlos (nombre de rey, alertou-me o mesmo espanhol), rapaz metido a gostosão. Pois é. Esse monarca era todo cheio de pose, encarava o touro, todo-todo, curvava-se para traz sobre a coluna, com a mão direita acima da bacia, e postava-se perigosa e corajosamente entre o touro e sua capa vermelha. Abusou muito da sorte até que o bovino encaixou-lhe o chifre esquerdo entre as pernas. OOOOOHHHHH, bradou em uníssono a Plaza de Toros. O colosso negro deu um giro com a cabeça que fez o rapaz dar uma pirueta no ar... Juan Carlos subiu uns dois metros, braços e pernas balançando como num boneco de pano. Hoje, ao recordar, a cena se passa na minha cabeça em câmera superlenta, algo meio Matrix: o cara subindo, rodando, balançando os braços como mamulengo e descendo ao solo. Foram centésimos de segundos chocantes. Juan Carlos se estabacou no chão e por sorte, ainda no ar, soltou a capa, o que desviou a atenção do animal. Os assistentes correram a desviar o touro... O mais impressionante foi ver o jovem se levantar da areia da arena num pulo e correr para a segurança da barreira de ajudantes. Sujeito sortudo. O que poderia representar uma castração ficou apenas em um rasgo na calça, aquelas bem ridículas de malha cor-de-rosa.
Alguns minutos depois, já recuperado, Juan Carlos voltou decidido a vingar-se do algoz. Não o fez na primeira estocada com sua espada (o bom toureiro não deixa o touro sofrer e o mata instantaneamante). Foi preciso que assistentes retirassem a arma e lhe servissem outra, para o golpe final e mortal.

Olhaí o jovem toureiro Juan Carlos, dando as costas para a fera e, abaixo,
preparando-se para o malfadado "golpe mortal"

O afã de matar o touro rapidamente, por exigência da platéia, foi a razão das chifradas que levaria o terceiro toureiro da tarde (aquele do qual não me lembro o nome). Rapaz corajoso, aquele. Espada em riste, se lançou sobre o animal duas vezes até que a espada penetrasse o coração do bicho. Na primeira, foi golpeado tão violentamente que duvidou-se que voltaria. Retornou dez minutos depois para levar outra cabeçada. Mas desta vez enterrou fundo a espada, para delírio da espanholada. Matou o touro e saiu carregado, para voltar depois convalescente e receber as saudações com rosas ao fim do espetáculo. Resultado daquela tourada: um banderillero velocista-saltador, um picador no chão com seu cavalo, dois jovens toureiros no hospital e seis novilhos mortos.

A carne deles abasteceria aos churrascos nas instituições de caridade de Madri (sem cupim).

Nos vídeos abaixo, trechos da tourada de 27 de maio de 2009 na Plaza de Toros de Las Ventas, em Madri: o baile e a execução

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