domingo, 26 de julho de 2009

Mar e montanha na terra da lasanha

Riomaggiore, a primeira das Cinque Terre ao sul da Liguria, na Itália, vista a partir da Via dell'Amore, passarela pregada nos penhascos
Se o seu negócio é praia, esqueça. Aliás, fique no Brasil mesmo, onde estão as melhores do mundo. Agora, se sua intenção e encontrar aquelas entre as paisagens mais encantadores da Europa, diferente da agitação das metrópoles, vai precisar conhecer a Riviera Italiana, a terra onde a montanha encontra o mar. O ponto alto da visita são as Cinque Terre (Monterosso, Corniglia, Manarola, Riomaggiore e Vernazza), vilarejos pregados nas rochas verticais que mergulham para profundezas abissais na província da Liguria, na costa ocidental da Itália.
A paisagem é de filme, romance, ideal para aquela viagem a dois. E também para quem gosta de caminhadas. As cinco cidadezinhas ficam na área do Parco Nazionale Maritimo, que a partir de abril abre seus sentieri (trilhas) para os aficcionados do trekking. Há percursos com todos os graus de dificuldade, com até cinco horas de subidas e descidas, ligando uma vila à outra. Tá com preguiça? Faça a bucólica, bela e romântica caminhada pela Via dell’Amore, entre Riomaggiore e Manarola. Não mais de meia hora com grau de dificuldade 1.
As Cinque Terre posseum ligação rodoviária, mas é preciso sangue frio para dirigir nas estreitas rodovias que serperteiam entre penhascos, além de ser um problema estacionar nos vilarejos. A melhor opção mesmo é ir de trem (um belo passeio, aliás), a partir de Gênova ou de La Spezia, duas cidades nos estremos norte e sul da Ligúria.
Estação ferroviária de Manarola. Toda a linha férrea entre as Cinque Terre corre entre túneis, escavados na rocha maciça
Mas a Riviera Italiana guarda outras maravilhas além das Cinque.
Partindo do lado genovês, comece por Portofino, belíssima cidadezinha e marina com suas imponentes mansões e seus atracadouros particulares. Visite os aconchegantes cafés e as pecaminosas sorveterias. Caminhe por cinco quilômetros apreciando vistas espetaculares na costa até a cidade de Santa Marguerita, onde há excelentes opções gastronômicas.Veja, na cidade logo à frente, o mar dos dois lados no calçadão recém-inaugurado de Setri Levante. Caminhe pela longa praia de seixos em Deiva Marina, Bonassola e Levanto.


"Casinha" no sentiero (caminho) entre as cidades de Santa Marguerita e Portofino, ao norte, já quase chegando em Gênova. Dizem que Berlusconi tem uma casa nessa região para estressantes reuniões de trabalho com jovens militantes do Il Popolo della Libertà... Abaixo, mais ao sul, pôr-do-sol em Sestri Levante
Depois das Cinque Terre, já em La Spezia, pegue o ônibus ou dirija num carro alugado até Portovenere, com sua nova marina de onde saem passeios de barco muito agradáveis pelas Cinque. Aprecie a vista espetacular do golfo de La Spezia emoldurados pelos picos nevados dos Alpi Apuane ao fundo; veja a Isola Palmaria à direita e as montanhas de pedras avermelhas à esquerda, de cima da medieval Igreja de San Pietro (onde ainda são oficiados serviços), sobrevivente entre as ruínas do Castelo de San Pietro.

Io, emoldurado pela baia de Portovenere - última cidade da Liguria ao sul - com os Alpi Apuane toscanos e seus cumes nevados ao fundo

Praias, ciprestes e vinhos na mítica Toscana

Chianti Clássico, Brunello di Moltalcino e Nobile de Montepulciano. Três dos vinhos mais famosos da Itália (e do mundo), separados por uma bucólica e segura rede de pequenas rodovias com menos de 100 quilômetros (SR-222, SP-146). Adicione outros 100 (SS-1 – Via Aurélia) e desembarque no deslumbrante cárcere de Napoleão: Ilha de Elba, rochedo que esconde em suas baias e enseadas as mais belas praias da Itália (e da Europa). É. O imperador francês era tão importante e admirado que até a sua cadeia se parecia mais com paraíso.

Vamos lá. Florença, capital da Toscana, é sua base. Tem aeroporto, mas às vezes você desembarcará em Pisa, o que é bom, porque é pertinho e dá para ver a torre inclinada. Florença possui todas as grandes empresas de aluguel de carro, no centro ou lá mesmo no aeroporto. Uma boa pesquisa e reserva antecipada pela internet pode redundar em barbada, ou seja, uma diária de menos de 30 euros no carro. Tá, não e um carrão italiano, Alfa Romeo etc. Mas os modelos básicos na Europa já vêm com todos opcionais que no Brasil elevam o preço dos carros à categoria luxo.

Programe-se. Uma semana?

Ok. Mais do que suficiente para conhecer as mais deslumbrantes paisagens do centro da Itália, com as indefectíveis colinas verdes, amarelas e vermelhas da relva e das flores (das amapolas; em italiano, papavere) na primavera. As pequenas montanhas, delineadas pelos típicos ciprestes, sempre apresentam um castelinho no topo. Muitos são vilas onde se produz e se pode saborear in loco três dos melhores vinhos do mundo através de degustações guiadas (aqueles dos quais falei em cima, Chianti, Brunello e Nobile). Ah!, aproveite e adquira umas garrafas para levar para o Brasil. Aqui os impostos para importação são tão elevados que os preços são até 10 (isso), dez vezes mais caros.

Olha, além de vinhos, nesse roteiro a cada dúzia de quilômetros surgem novas descobertas nas vielas das mais bem-conservadas cidades medievais da Europa mediterrânea: Montalcino, Montepulciano, Pienza... Tá, você terá alguma dificuldade para estacionar por ali, mas vale o esforço. São cidades em que se visita em uma manhã. Mais adiante, verás Massa Marítima e seu duomo do século XIV, que abriga o túmulo de San Cerbone. Daqui, pegue uma autoestrada (SS-1) e estique até Piombino. De lá, siga num navio (com carro e tudo) em uma curta travessia (40 minutos) pelo mar tirreno até a jóia do Arquipélago Toscano.

Ilha de Elba.

Surpreenda-se com a paisagem impressionista da mistura de vegetação e pedras em cores pastéis do cume do Monte Capane, mil e 19 metros além do mar em uma subida quase vertical por um vertiginoso teleférico de 700 metros. A oeste, avista-se os contornos da Ilha da Córsega, território francês. Para, para, para. Antes de subir montanha de carona, considere uma outra escalada num trekking pelos diversos roteiros, no grau de dificuldade que vocês suportar, pela goegrafia acidentada de Elba, para depois descansar num belo mergulho no mar a partir de uma prainha escondida entre os penhascos (vai, vai, a água pode ser um pouco fria, mas logo se acostuma... E também não repare se algum (a) desinibido (a) fizer um top less ou emergir peladão (ona) da água cristalina).

Ufa! Ufa?

Não acabou, não. Ainda tem a volta: San Gimignano, a cidade das 60 torres; Cortona, do filme Sob o Sol da Toscana... Jesus Cristo! SIENA! (ahh, Siena, Palio, Torre del Mangia e os cafés mais charmosos que alguém possa imaginar), e Greve in Chianti, com suas maravilhosas vinhas e adegas... E...!!! Haja exclamações!

P.S. Está com tempo? Acrescente mais três dias e conheça a reformada Assisi, na província do Marche (a vila medieval, destruída por um terremoto em 1997, foi toda restaurada com pedras cor-de-rosa. Detalhe sórdido... Ficou parecendo a cidade da Barbie). Mas vá lá, estratégias de turismo a parte, Assisi é, para nós brasileiros, Assis, sinômino de fé e devoção. Isso mesmo, é a cidade do santo, onde fica a Basílica e o túmulo de São Francisco, um lugar, aliás, imerso num mistério desconcertante. Há sempre muitos peregrinos rezando e concentração daqueles frades de chinelo de dedo e seus votos de pobreza. Tem também, claro, a lojinha onde você pode comprar aquele terço benedicto para a sua vovozinha.

Assisi é terra ainda da Igreja de Santa Clara, que guarda seu túmulo e suas relíquias. Ironia é que na cidade do santo que mais simboliza o desprendimento das coisas materiais tão martelado pelo cristianismo, nos muitos cafés da avenida principal lê-se a inscrição logo na porta: “Copo com água só mediante pagamento”. Fiquei revoltado.

Bom, já que você está ali pertinho mesmo, vá a Spoleto, admirar seu belo duomo e as belas quedas d´água das Cascatas de Mármore. Gosta de emoções fortes? Tem Perúgia a algumas dezenas de quilômetros. A cidade está na região sísmica mais ativa da Itália, mas tem um belo duomo e culinária convidativa). Não, não dá para perder o Lago Trasimeno, alí do ladinho, 20 quilometrinhos, de carro é um pulo: às margens do lago é ideal passeios de bicicleta, tanto que hotéis e Bed and Brakefests já as incluem nas diárias. Às margens do Trasimeno, no Campo de Sangue, o general cartaginês Aníbal derrotou as até então invencíveis legiões romanas em 217 antes de Cristo, na segunda guerra púnica. É. Pitadinha de história.

Tá gostando? Então, que tal um pulo mais ao sul? Nápoles, Vesúvio, Pompéia, Herculano, Sorrento, Amalfi, Positano, Praiano... Não, não, esquece... Nessa região, ir de carro é coisa de maluco. Experiência própria (teve uma rua onde foi preciso rebater os retrovisores para o Cinquecento!!!! passar). Vai, vai, fica para a próxima. Mas de trem.

P.S.2. As fotos chegam em breve.