sexta-feira, 25 de junho de 2010

Viva o boteco de vila

(Texto originalmente publicado no www.baresrestaurantesgoiania.blogspot.com)

Por Realle Palazzo-Martini - eu mesmo

Tudo bem que é da natureza humana se relacionar, se ajuntar, flertar, paquerar, se embebedar, se estranhar e tal. Mas, convenhamos, não dá para entender porque nóis aqui da Goiânia temos uma curiosidade doentia pela novidade quando o assunto é boteco. Já repararam que sempre que surge um bar novo na cidade todo mundo corre para lá ao mesmo tempo? E precisa nem ser grande novidade o bar não. É só trocar o nome, passar uma demão de tinta e o boteco vira novo. Pois é. É impossível freqüentar um lugar assim, entupido de gente, barulhento demais, com preferências musicais diversas. Tais ambientes são nocivos à nossa atividade intelectual, fraternal e etílica. Não se pode conversar sem no outro dia tirar onda de Ângela Rorô. Aquela música infame (construi o meu ranchim pra muié e prus fiim) vai ficar duas semanas martelando na sua cabeça. A cerveja é quente, naturalmente, pois não há Suécia que consiga resfriar tanta loira ao mesmo tempo. E mais: quando você se certifica de que a moça da mesa ao lado está dando mole é para você mesmo descobre que ela, no momento, não está aceitando cartão de crédito.
Ah, e ir ao banheiro, principalmente para as mulheres (Melissa, amiga, me empresta sua sete léguas?), é um exercício de paciência, de controle emocional e dos esfíncteres. Pode se, ainda, ter péssimas $urpresa$ no cardápio, e ainda um tira-gosto malhado, frio e cabeludo. Enfim, bar novo é uma chatice, o que nos compele a uma urgente reflexão acerca do resgate do boteco de vila. O bar nem precisa ficar na vila, trata-se de um conceito (exemplo: Bar do Elpídio, no Mercado da Rua 74, é boteco de vila, mas fica no centro).
Devemos considerar que o ir ao boteco está carregado de significados sociológicos. É, em essência, uma das manifestações de socialização mais fortemente enraizadas na cultura e na tradição brasileiras (atenção, não confunda socialização com reunião de núcleo, apesar de que na tradição da esquerda brasileira toda subversão começa e termina no bar).
Então, listadas abaixo, estão as referências básicas a caracterizar um boteco de vila.
1) - Seja qual for, a música não atrapalha a conversa. Ela precisa estar lá, mas não deve chamar muito à atenção. Aos bêbados é permitido um karaokê (choooora peito, me maaaa...), mas nada de exageros, por favor. Aliás, melhor seria se o boteco de vila tocasse só MPB, porque mesmo se aparecer alguém que não gosta não vai ter coragem de dizer, né (você não conhece alguém que sobe na mesa e bate no peito: "Eu não gosto de MPB!").
2) - A cerveja ou o chope devem ser matrimoniais (ponto) e baratos.
3) - Uma cachacinha de engenho é fundamental e, convenhamos, não deve ter preço de uísque escocês né, tenham consideração, PQP!!!
4) - O petisco tem de ser farto, barato e frito gente, sem essa de frescura natureba, coisa chata, avicruiz (as opções básicas são linguicinha da roça frita, pastelzinho frito, quibe frito, batata frita, fígado acebolado frito, frango a passarinho sequinho e com pele -- churrasquinho com acompanhamento está liberado --, e são permitidas regionalidades, particularidades e invencionices -- desde que fritas).
5) - O dono do boteco, invariavelmente, chega com um paninho, limpa a mesa e já senta logo para colaborar com o bate-papo.
6) - O atendimento é personalizado. O garçom, lógico, sabe seu nome e pergunta logo: "O de sempre, chefe?"
7) - O banheiro pode ser só vaso e pia, e unissex, mas limpinho, pelamordedeus, e com papel higiênico (marmanjos, por favor, abaixem a tampa ao sair); em tempo: é permitido deixar mensagens eróticas nas paredes.
8) - As moças não podem ser seletivas demais com suas escolhas e os rapazes, please, arrumem cantadas mais originais, sutis e gentis.
9) - Uma vaga para estacionar deve ser encontrada a, no máximo, dois quarteirões de distância.
10) - Um orelhão nas imediações e uma viatura da PM roletando de vez em quando são desejáveis.
11) - Gorjeta não é, em nenhuma hipótese, compulsória. Sem essa de extorsão. Se o garçom é bom, claro, pode até levar mais de 10%.
Enfim, que eu me lembre agora, são essas as características básicas que um boteco de vila deve ter. E o objetivo desse post é o seguinte: indique o seu boteco de vila se ele se enquadrar na descrição acima. Começo com cinco:
Bar do Dodô, Rua Horizonte, no Aeroviário. Cerveja gelada e um tiragosto inspirado.
Bar do Elpídio, claro, no Mercado da 74, Centro. Tiragosto, cachaça e as pessoas.
Bar da Help, na praça da Marfinite, T-2 com T-8. Tradição e bom atendimento.
Buteko do Chaguinha, C-155, Jardim América. O Chaguinha é uma figura.
Breguella’s, Rua 134, Setor Sul. É perto da minha casa.
Olhaí a contribuição do grande botequeiro Bok@o, gente boa da Vila União, deixado em comentário, que acrescento à lista:
Bar da Tia, lá na 3, no Centro. O bar não tem este nome, mas todos os punks e boêmios de Goiânia o conhecem como tal. Doses e jogos caça-níqueis ilegais são o forte por lá.
Bar do Seu Jamil, dentro do Mercado Central. É o boteco mais underground de Goiânia. Você mesmo lava seu copo e se o Jamil estiver empolgando, ele mesmo frita uma carne na panela que não lava há 30 anos e te serve de graça. O forte do boteco sãos a diversas pingas com raízes, músicos boêmios e loosers que fazem canjas ao vivos de clássicos caipiras.
Tô Aki no Paulão, boteco da Vila União, com as mesas ocupando as ruas. Se o carro quiser entrar lá, terá que desviar, pois a galera não sai. Se você quiser, pode ficar na ilha, entre duas imensas árvores e ter a sorte de ficar na rede que ele dispõe por lá. Se for macho, vai lá aos domingos ver uma partida de futebol, regada a cachaça e algumas brigas apartadas pela moçada.
Pastel da 84, frequentada pela moçada (secundarista). Cerveja barata, gente bêbada nas calçadas com um ou dois sempre tentando encontrar um lugar mocozado pra queimar um orégano.
Bar do Dedé, o único bar de Goiânia que fica numa curva. Não é esquina de encontro de duas ruas não. É na curva mesmo. O pior atendimento de Goiânia, mas tem um churrasquinho responsa. Se tiver sorte, pega a cerveja gelada. Mas as mesas do outro lado da rua, debaixo de várias árvores, caindo pequenas folhinhas no seu copo e brinquedos toscos, que certamente machucarão o seu filho, garantem a alegria dos baixinhos e grandinhos.
(Realle Palazzo-Martini é jornalista e, obviamente, botequeiro)

2 comentários:

Janequine disse...

Ô, botequeiro! Quanto cê ganhou pra fazer propaganha destes botecos? rsrs

Janete F

INSAITES disse...

Por mais que se esforce em suas tramas e dramas, Goiânia é (não sei se será) uma cidade sem graça, sem originalidades, uma espécie de lugar onde se encontram as obviedades. Então, e somente então, os "butecos" vêm para nos salvar da angústia, da distância do mar e da dificuldade de amar, pois, dizem, amar é fundamental e imprescindível...