quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Viva o boteco da vila

(Texto originalmente publicado no www.baresrestaurantesgoiania.blogspot.com)

Por Realle Palazzo-Martini - eu mesmo)

Tudo bem que é da natureza humana se relacionar, se ajuntar, flertar, paquerar, se embebedar, se estranhar e tal. Mas, convenhamos, não dá para entender porque nóis aqui da Goiânia temos uma curiosidade doentia pela novidade quando o assunto é boteco. Já repararam que sempre que surge um bar novo na cidade todo mundo corre para lá ao mesmo tempo? E precisa nem ser grande novidade o bar não. É só trocar o nome, passar uma demão de tinta e o boteco vira novo.
Pois é. É impossível freqüentar um lugar assim, entupido de gente, barulhento demais, com preferências musicais diversas. Tais ambientes são nocivos à nossa atividade intelectual, fraternal e etílica. Não se pode conversar sem no outro dia tirar onda de Ângela Rorô. Aquela música infame (construi o meu ranchim pra muié e prus fiim) vai ficar duas semanas martelando na sua cabeça. A cerveja é quente, naturalmente, pois não há Suécia que consiga resfriar tanta loira ao mesmo tempo. E mais: quando você se certifica de que a moça da mesa ao lado está dando mole é para você mesmo descobre que ela, no momento, não está aceitando cartão de crédito. Ah, e ir ao banheiro, principalmente para as mulheres (Melissa, amiga, me empresta sua sete
léguas?), é um exercício de paciência, de controle emocional e dos esfíncteres. Pode se, ainda, ter péssimas $urpresa$ no cardápio, e ainda um tira-gosto malhado, frio e cabeludo.
Enfim, bar novo é uma chatice, o que nos compele a uma urgente reflexão acerca do resgate do boteco de vila. O bar nem precisa ficar na vila, trata-se de um conceito (exemplo: Bar do Elpídio, no Mercado da Rua 74, é boteco de vila, mas fica no centro). Devemos considerar que o ir ao boteco está carregado de significados sociológicos. É, em essência, uma das manifestações de socialização mais fortemente enraizadas na cultura e na tradição brasileiras (atenção, não confunda socialização com reunião de núcleo, apesar de que na tradição da esquerda brasileira toda subversão começa e termina no bar).
Então, listadas abaixo, estão as referências básicas a caracterizar um boteco de vila.
1) - Seja qual for, a música não atrapalha a conversa. Ela precisa estar lá, mas não deve chamar muito à atenção. Aos bêbados é permitido um karaokê (choooora peito, me maaaa...), mas nada de exageros, por favor. Aliás, melhor seria se o boteco de vila tocasse só MPB, porque mesmo se aparecer alguém que não gosta não vai ter coragem de dizer, né (você não conhece alguém que sobe na mesa e bate no peito: "Eu não gosto de MPB!").
2) - A cerveja ou o chope devem ser matrimoniais (ponto) e baratos.
3) - Uma cachacinha de engenho é fundamental e, convenhamos, não deve ter preço de uísque escocês né, tenham consideração, PQP!!!
4) - O petisco tem de ser farto, barato e frito gente, sem essa de frescura natureba, coisa chata, avicruiz (as opções básicas são linguicinha da roça frita, pastelzinho frito, quibe frito, batata frita, fígado acebolado frito, frango a passarinho sequinho e com pele -- churrasquinho com acompanhamento está liberado --, e são permitidas regionalidades, particularidades e invencionices -- desde que fritas).
5) - O dono do boteco, invariavelmente, chega com um paninho, limpa a mesa e já senta logo para colaborar com o bate-papo.
6) - O atendimento é personalizado. O garçom, lógico, sabe seu nome e pergunta logo: "O de sempre, chefe?"
7) - O banheiro pode ser só vaso e pia, e unissex, mas limpinho, pelamordedeus, e com papel higiênico (marmanjos, por favor, abaixem a tampa ao sair); em tempo: é permitido deixar mensagens eróticas nas paredes.
8) - As moças não podem ser seletivas demais com suas escolhas e os rapazes, please, arrumem cantadas mais originais, sutis e gentis.
9) - Uma vaga para estacionar deve ser encontrada a, no máximo, dois quarteirões de distância.
10) - Um orelhão nas imediações e uma viatura da PM roletando de vez em quando são desejáveis.

11) - Gorjeta não é, em nenhuma hipótese, compulsória. Sem essa de extorsão. Se o garçom é bom, claro, pode até levar mais de 10%.
Enfim, que eu me lembre agora, são essas as características básicas que um boteco de vila deve ter. E o objetivo desse post é o seguinte: indique o seu boteco de vila se ele se enquadrar na descrição acima. Começo com cinco:
Bar do Dodô, Rua Horizonte, no Aeroviário. Cerveja gelada e um tiragosto inspirado.
Bar do Elpídio, claro, no Mercado da 74, Centro. Tiragosto, cachaça e as pessoas.
Bar da Help, na praça da Marfinite, T-2 com T-8. Tradição e bom atendimento.
Buteko do Chaguinha, C-155, Jardim América. O Chaguinha é uma figura.
Breguella’s, Rua 134, Setor Sul. É perto da minha casa.

Realle Palazzo-Martini é jornalista e, obviamente, botequeiro