sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Pecuaristas acionam o Cade contra monopólio do JBS


O Movimento Nacional contra o Monopólio dos Frigoríficos decidiu endurecer o jogo contra o chamado "Cartel da Carne". Com ameaças de interromper o fornecimento de animais para abate, lideranças ruralistas reuniram-se ontem na sede da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) e divulgaram a Carta dos Pecuaristas Goianos. O documento traz seis reivindicações principais, entre elas a de que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) investigue suposto abuso de poder econômico nas aquisições de frigoríficos com a utilização de dinheiro público.
A ação tem como endereço o Grupo JBS. Segundo a análise dos pecuaristas, a empresa detém em alguns estados mais de 50% do mercado. Em Goiás, JBS, Marfrig e Minerva controlam 40% dos abates. O movimento denuncia que os financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Nacional (BNDES), que serviriam na teoria para o JBS melhorar a sua competitividade no mercado global, tem sido utilizado para aquisições, fusões e arrendamentos de frigoríficos Brasil adentro. Os produtores exigem que o banco democratize o crédito às pequenas e médias empresas do setor.
Resultado quase que imediato da reunião em Goiânia e de uma audiência com membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o presidente do Cade, Vinícius Carvalho, informou que o órgão vai realizar estudo detalhado sobre o setor de frigoríficos. "Nós também já tínhamos essa preocupação. Sempre que um determinado setor apresenta muitas operações de concentração, o Cade fica alerta", disse Carvalho em entrevista à Agência Estado. O presidente do organismo antitruste se comprometeu a buscar a assinatura de Acordos de Preservação da Reversibilidade da Operação (Apros) nos processos onde houver riscos de prejuízo à ordem econômica.
A Carta dos Pecuaristas Goianos denuncia que o dinheiro recebido do BNDES é utilizado no arrendamento de frigoríficos e na estruturação de confinamentos. Tais estruturas, acusam, com centenas de milhares de cabeças de gado, servem a uma regulação artificial dos preços pagos aos produtores. Atualmente, a arroba está cotada em Goiás a R$ 83, mas os pecuaristas sustentam que o valor mínimo necessário à manutenção da atividade seria de R$ 90.
Com a vaca a caminho do brejo, as lideranças ruralistas decidiram na reunião da SGPA em Goiânia que as atividades do movimento nacional contra o monopólio dos frigoríficos serão intensificadas. Além da paralisação alternada e temporária do abate de animais, não está descartado um "tratoraço" ou um "caminhonaço" na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Adesivos do movimento serão distribuídos aos simpatizantes da causa ruralistas em diversos estados.

Retórica da crise
O presidente do Sindicato da Carne em Goiás, José Magno Pato, disse ontem ao jornal goianiense Diário da Manhã que a pecuária de corte está em declínio e que a margem de lucro dos frigoríficos é irrisória. Segundo ele, o frigorífico vende para o supermercado a carcaça a R$ 7 o quilo, o que dá aproximadamente R$ 1.600. Ele reclama que a atividade é inglória também para as empresas. "A remuneração média de um frigorífico é de no máximo 5% ao ano, bem abaixo do que qualquer aplicação financeira". Magno Pato alega que há 10 anos o consumo per capta de carne bovina no Brasil era de 37 quilos por ano. Hoje, diz, esse consumo caiu para 30 quilos/ano.
Em oposição às alegações de que a atividade pecuária está em declínio no Brasil, o diretor-técnico da Informa Economics FNP, José Vicente Ferraz, disse à Agência BeefPoint que o Brasil deverá voltar à primeira posição no ranking dos maiores exportadores de carne bovina no mundo este ano. Na estimativa da consultoria, o Brasil vai embarcar 1,465 milhão de toneladas equivalente carcaça, à frente da Austrália (1,38 milhão de toneladas) e dos Estados Unidos (1,25 milhão de toneladas). No ano passado, o Brasil ficou em segundo lugar, com 1,322 milhão de toneladas embarcadas, atrás da Austrália (1,35 milhão de toneladas), mas ainda um pouco à frente dos Estados Unidos (1,24 milhão de toneladas).

Nenhum comentário: